Esse livro demorou 30 anos para ser escrito e teve 3 pessoas trabalhando em momentos diferentes. A história partiu de Gardner Dezois nos anos 70, ficou cozinhando por bastante tempo até que Martin se envolvesse para lapidar o texto e a trama e, mais tarde, veio o acréscimo de Daniel Abraham. Parece que a sina de Martin se repete ele escrevendo sozinho ou acompanhado.
Acho que a coisa que mais me chamou a atenção aqui foi o contexto da obra. Em todas as tramas de ficção científica que eu li que envolvem o homem o homem conquistar o espaço ou entrar em contato com raças alienígenas, éramos sempre nós que dominávamos a situação, tomando conta de planetas ou formando alianças com o que era encontrado lá fora. Aqui não, a humanidade se confrontou com seres mais evoluídos que nos colocaram sob a sua organização e comando, mudando um pouco a lógica.
“A humanidade planejava espalhar suas sementes por todo o universo, […] mas acabou desapontada. O universo já estava ocupado. Outras raças cheias de sonhos estelares tinham chegado primeiro.”
Os humanos são levados para planetas colonizados para trabalhar e construir uma nova vida fora da terra, mas as leis e a quem se deve responder acabam sempre pairando sobre outras criaturas que não somos nós. Achei isso muito interessante porque temos essa arrogância de achar que somos o que há de melhor no universo, quando pode haver muita coisa lá fora que desconhecemos e que pode sim nos subjugar.
Ramón é um personagem bastante complexo e como não temos todas as informações logo no começo, assim como o próprio personagem, isso parece ficar ainda mais evidente conforme vamos caminhando por sua vida. Ele está sem memória e enfiado em uma caçada que nem mesmo entende. Nessa jornada, onde será o tempo todo confrontado por uma nova raça com relação aos seus instintos e os porquês do ser humano fazer o que faz em todos os aspectos, ele será obrigado a também repensar sua existência, refletindo tudo isso para o leitor.
“‘Livre’ é viver sem restrições.”
E é sim uma jornada de descoberta, tanto do personagem quanto da própria história. O que nos parece óbvio a um primeiro olhar pode se mostrar completamente o oposto alguns passos à frente, chocando e fazendo com que venhamos a questionar mais do que aceitar simplesmente as coisas.
Outro personagem super importante aqui é Maneck. Não vou entrar em detalhes sobre quem ele é ou qual seu papel na trama, mas ele protagoniza também boas cenas ao lado de Ramón, cativando o leitor mesmo que suas intenções não sejam sempre claras ou as melhores quando expostas. Também vamos conhecer alguns lugares desse planeta que é composto por “imigrantes” do Brasil, México, Jamaica, Barbados e Porto Rico. Há uma cultura latina muito forte e o protagonista que é Mexicano, tem traços bem característicos de seu povo.
Algo que me deixou um pouco apreensiva foi o final dado a história. Ele ficou em aberto, e sabendo o tempo que essa história demorou pra ser escrita, sua publicação de 2008, e o fato de que provavelmente não veremos uma sequência, mesmo o livro precisando, me deixa um pouco chateada. O mundo é riquíssimo e realmente merecia ser explorado de alguma forma, mesmo que tenha que deixar de lado um ou outro par de mãos.
Caçador em Fuga é uma leitura super válida para qualquer bom fã de ficção científica que quer se confrontar com algo novo e inesperado. O nome de Martin vai pra dar ainda mais peso a trama já que vimos sua parceria com Dezois em outros livros, como as coletâneas de contos em que eles são os organizadores. A única dúvida que fica é se haverá um próximo passo ou se essa proposta se encerra realmente aqui de forma incompleta.