A leitura deste livro foi muito agradável e esclarecedora, mas também contraí algumas decepções no decorrer da obra. O livro alargou minha compreensão sobre as democracias liberais em termos de: sua definição, seu amadurecimento, suas instabilidades e sua evolução no contexto brasileiro. Em especial, gostei de suas ressalvas sobre a aplicação da teoria da escolha racional ao estudo da democracia, expondo as deficiências desse modelo analítico em termos empíricos e lógicos.
Por outro lado, dos Santos abusa em digressões em seu livro. Enquanto desenvolve seus argumentos, o autor abre muitos hiperlinks e parênteses que prejudicam a coesão e a coerência textuais. Em diversas oportunidades, eu simplesmente esquecia qual era o objetivo central do capítulo ou não sabia aonde o autor queria chegar em meio a tantas digressões. Curiosamente, dos Santos era um institucionalista, mas escrevia como meu professor de pensamento político brasileiro, que também é conhecido por seu excesso de hiperlinks. (Nada contra o senhor, professor, inclusive sinto falta de suas aulas). Talvez isso faça cair por terra que os institucionalistas são parcimoniosos, huh?
Estilos de escrita à parte, no início de sua obra, dos Santos dava a entender que traria maior ênfase ao conceito de golpe parlamentar e sua aplicação na destituição do governo de Dilma Rousseff. Achei muito interessante como ele definiu essa modalidade de golpe, caracterizando-a como uma tendência nova, sem paralelos históricos com as tomadas de poder de outrora (por ex: as quarteladas latino-americanas). No entanto, dos Santos dedica apenas o último capítulo de sua obra para tratar especificamente do golpe de 2016. E mesmo assim, sua explicação fica espremida por digressões a respeito do mensalão. Não que não seja importante falar sobre os antecedentes da insegurança jurídica no Brasil, mas seu foco no impedimento de Dilma tornou-se acessório.
De todo modo, belo livro. Tem relativamente poucas páginas, mas é denso em reflexões.