Meu primeiro Isabel Allende. Não sei bem por quê, se já tinha livro dela na estante.
Primeira coisa (que não é novidade nenhuma para quem já a lê há muito tempo): que escrita agradável!
Segunda: que ideia mais tonta para um livro!
Richard, americano, é chefe de departamento e professor na Universidade de Nova York onde Lucía, chilena, tem contrato de seis meses como professora universitária. Ela também é sua inquilina, vivendo no porão de sua casa no Brooklin. No sábado, após uma tormenta de neve que havia deixado a cidade quase intransitável, Richard, após levar seu gato ao veterinário e deixá-lo internado, colide com o carro conduzido por Evelyn, uma guatemalteca que se encontra ilegalmente no país. Querendo assumir a culpa pelo ocorrido ele lhe dá seu cartão, mas ela não fala nada e vai embora. Porém, à noite, aparece diante de sua porta, ainda muda, o que o obriga a chamar Lucía para ver se era uma questão de idioma. A questão era um corpo no porta-malas. A partir daí os três se unem para lidar com o problema.
Sinceramente, eu nem pensaria em ler um livro com essa premissa, já me viria à cabeça aquelas comédias babacas tipo Um morto muito louco. Mas é o livro do mês de um clube de leitura do qual participo e afinal, é Allende.
A melhor parte é quando a autora volta ao passado para que conheçamos um pouco mais os personagens e as tormentas pelas quais passaram, pois os três tiveram suas tragédias. Só que ao contar a história pregressa dessas pessoas, a narrativa passa pelo mesmo problema de Casas Vacías, de Brenda Navarro, que li recentemente: uma das histórias é muito mais interessante do que as outras. É sempre sobre ela que queremos ler, é na narrativa de sua vida que queremos voltar.
Quanto ao presente... é uma trama tão rocambolesca que só é digerível pelo fato de Allende ter muita habilidade com as palavras, ser competente na criação de personagens. Mas a história não ajuda. Eu pensava: por favor, vamos sair daqui, vamos ao passado, me contem mais sobre vocês. E da noite na cabana em diante foi ladeira abaixo.
Portanto, não tinha como não ter um resultado irregular. A própria capa é um chamariz para mim: acho fofa e me remete a romances fofos que eu não gosto de ler. :P
Mas vamos aos prós: como eu não tinha lido nada de Isabel Allende antes, não criei expectativas. Como achei a escrita muito boa, claro que quero ler outros livros dela. Ela me fez gargalhar algumas vezes, mas reconheço que é também porque alguns termos em espanhol são hilários. As questões de fronteira México/EUA, os Zetas, violência e pobreza na América Latina eu venho pesquisando desde outras leituras e é sempre enriquecedor ler mais um pouco a respeito, ainda que não seja o mote deste livro.
O contra é... todo o resto! Que final medonho, Dios bueno! E ficar zanzando com um morto no porta-malas... pelamor, Isabelita!!!