Julius Evola é um René Guénon com sangue nos olhos. Se Guénon fosse os Vedas, Evola seria o Tantra. Por conta de ser um tradicionalista heterodoxo se perceberá que a crítica do mundo moderno de Evola é a crítica de um xátria, por isso a revolta, enquanto de Guénon é de um brâmane. Na “Crise do mundo do moderno” de René Guénon é a crítica em estilo filosófico, do metafísico e da mística, mas a “Revolta contra o mundo moderno” é a crítica de um guerreiro, do homem amante da guerra e do homem de ação. Por isso Evola dá maior valor à casta guerreira do que à casta sacerdotal, pois esta preserva a ordem e a virtude, e não por acaso o prefixo “vir-“ que também está presente em viril, se relaciona a uma ordem diferente do homem como “homo”, sendo o homem “homo” o geral, impessoal, do povo. Já o homem “vir” está além dos outros, um herói, um semideus ou o próprio deus na terra. A casta guerreira e a casta sacerdotal são de certo modo complementares, enquanto uma lida com o espírito e outra com a ação, mas o espírito é passivo e sozinho não gera nada, enquanto a ação sozinha consegue mover o mundo, tanto para o bem como para o mal.
Muitas mulheres não vão gostar da leitura, pois ele faz a dicotomia complementar homem-mulher, sendo que o lado passivo é submisso e o ativo é soberano. Há uma espiritualidade masculina, guerreira, heroica, dirigente, que aparece nos paganismos, principalmente no nórdico, na Grécia homérica, e também aparece na classe dos samurais, no islã e na religião védica antiga. Já a espiritualidade feminina é a da mística, do amor, da paz, do cristianismo, das religiões matriarcais e do panteísmo. A espiritualidade masculina visa te tornar um deus, enquanto a espiritualidade feminina visa à dissolução do indivíduo ou a contemplação de um deus.
A corrupção e decadência da existência se dão pelo modo como os entes de dentro do organismo caducarem uma a uma e mudarem o centro primordial das coisas, onde acaba a centralidade da cabeça e passam as mãos a comandarem o corpo. A decadência segue as castas, da maior para a menor, mas antes de tudo havia o Rei, o Império ideal centralizado numa figura que era ao mesmo tempo sacerdote e herói guerreiro, tendo igualmente a idealidade até mesmo das castas inferiores, pois tinha a riqueza maior que a de um comerciante e seu trabalho era mais intenso que o do trabalhador servil. Este tipo de Rei seria o Übermensch nietzschiano, virtuoso, viril, o chakravartin, ou seja, aquele que move a roda. Isso ainda se pôde ver entre os faraós sendo este a figura do rei-sacerdote por excelência. Neste estado além-humano cada um ocupa seu lugar no mundo e isso não é nenhum peso, pois todos agem não apenas para a coletividade, mas para em torno do centro existencial. Da mesma forma o sacerdote encontra sua virtude no rito, o sacerdote na guerra, o produtor/comerciante na produção e distribuição e o servo no trabalho e na obediência. Ocorre que com a decadência dessa era de ouro, pois a própria virtude real decai um pouco, e os sacerdotes então dominam e começa a era de prata.
A era de prata, não por acaso tendo não mais a cor do ouro solar masculino e sim da lua prateada feminina, surge com a espiritualidade mais passiva, da contemplação e não tanto da ação. Claro que sempre haverá formas de espiritualidade solar, como é o caso do islã, mas a força maior será para a passividade. Aqui ainda é um período grandioso da espiritualidade, onde surgem os místicos e santos contemplativos e há acordo entre a classe sacerdotal e a guerreira. Mas o movimento de entropia e também as forças centrifugas movem para a desagregação das antigas teocracias. Surge então o que os gregos chamam de período heroico, onde grandes guerreiros e seus filhos dinásticos surgem, trazendo figuras como Alexandre, Carlos Magno e Gengis Khan. Na Idade Média ainda se vê estas figura guerreira nas cavalarias e depois nas cruzadas, apesar da crítica de Evola contra o cristianismo e a Igreja Católica por gerarem sentimentalismos que serão fruto de coisas terríveis e de certa forma castrarem a virilidade medieva. Com a nobreza guerreira se tornando e apenas nobreza de nome, como por exemplo a nobreza francesa barroca, então os comerciantes tomam conta e vem o período do mercantilismo e das grandes navegações. Surge o liberalismo que vai espalhar o capitalismo para o mundo todo, inclusive para civilizações tradicionais. Agora não são mais os valores viris e nem os espirituais que predominam, mas apenas o valor monetário e de produção. É a era de bronze.
Antes de irmos para a era de ferro, é preciso dizer que Evola faz uma geografia sagrada, onde o espaço não é neutro como diz a moderna geografia moderna, mas diferentes espaços têm diferentes qualidades intrínsecas. O leste é de onde surge a luz, é o ponto original da tradição, até por isso em nossa língua oriente serve para a palavra orientar. O norte também é um ponto importante, pois é onde está o eixo do mundo em torno da suástica da estrela polar. É a partir do norte para quem vive neste hemisfério que vê o céu girar em torno de um centro, por essa razão há a palavra “nortear”. Orientar e nortear são o foco da tradição, por isso ela surge nas altas latitudes mais ao leste a hiperbórea de luz eterna. Já o ocidente remete às trevas da noite e para onde a luz se esconde, enquanto o sul é o extremo da circunferência da roda do céu girando mais abruptamente, num puro devir que contrasta com a perenidade do norte. O norte é masculino e estável, o sul é feminino e dinâmico. O norte é unidade e o sul multiplicidade.
Aqui começa um ponto negativo do livro, pois Evola viaja como a Blavatsky em falar em continentes físicos e cai na pegadinha da existência de um continente chamado Lemúria. Aqui ele foi materialista ao extremo por acreditar na existência material de Hiperbórea, Lemúria e Atlântida. Hiperbórea seria o continente leste-norte de guerreiros espiritualizados, Atlântida seria oeste-norte de guerreiros tecnocratas e Lemúria seria o leste-sul onde o sacerdote panteísta habita. Tirando essa materialidade a la Blavatsky, se pode colocar EUA como uma nação guerreira, mas material, enquanto o oriente como China e Índia teriam a espiritualidade e virilidade. O sul do pacífico predominam as formas femininas de espiritualidade feminina, panteístas, orgíacas e tribais. O pior seria aqui o sul-oeste, onde o materialismo e o a passividade orgíaca predominam, a terra onde ninguém é de ninguém.
Então vem a era de ferro, começa a era obscura de Kali Yuga, onde quem predomina sãos os trabalhadores, seja através das várias formas de democracias modernas (ainda mais pós-modernas), seja nas diversas formas de socialismo e comunismo. Há dois polos: 1) onde os trabalhadores se entregam à frenesi do trabalho democrático e automatizado, além de impessoal, para obterem prazeres instintivos como festas, aparelhos domésticos, alimentação e todo tipo de orgia, sexual ou não, e isso tudo caracteriza o ocidente e principalmente EUA e Europa; 2) onde os trabalhadores se sujeitam à ditadura do proletariado, ou seja, se submetem coletividade e vivem na privação num ateísmo “místico” de contra-tradição, e aqui temos como exemplo União Soviética e China. Quando o trabalho se torna um valor importante (mais-valia ou time is Money), então o mais baixo do ser humano se manifesta. Aqui Evola não fala, mas podemos presumir que virá outro estado de coisas onde os sem casta predominam, ou seja, os bandidos, corruptos, ladrões, estupradores, assassinos, blasfemos, cruéis e todo tipo de gente louca e inescrupulosa é admirada e ganha poder. Creio que isso já começa a surgir.
Este é o estado das coisas. Há pontos focais de tradição, quase que isolados com muitas dessas coisas do mundo. Há os outros que tem o desejo sincero de mudança, mas estão amordaçados e muitos desses irão se perder. O terceiro caso, que Evola prefere falar em outro livro, é acelerar o processo de destruição do mundo para um recomeço, tomar o veneno e dar ele a todos, mas não ser envenenado.
Sei que essa potência de Evola é importante, mas como sou mais passivo e intelectual, então Guénon me parece mais contido. Entretanto Guénon e Evola são uma forma de complementação entre o intelectual e o guerreiro.