O fato de que Lygia Fagundes Telles é uma leitura incontornável quando o assunto é literatura brasileira é sabido e notório. Quando se trata de contos, então, torna-se indispensável a necessidade de se conhecer a autora. E este Seminário dos ratos, publicado em 1977, sendo portanto o sucessor do magnífico Antes do baile verde dentro da produção contista da Lygia, mostra uma clara evolução da potente prosa breve da nossa eterna dama da literatura nacional.
Este Seminário dos ratos, em sua mais atual edição, conta com 13 contos muito peculiares. A narrativa de abertura, As formigas, é um bom exemplo disso. Leitores conhecedores do livro de contos anterior de Lygia, Antes do baile verde, serão enganados por se sentirem em um terreno seguro, sem surpresas. A partir do estabelecimento de um evento fantástico - formigas que juntam ossos de um anão para montá-lo - que amarra do início ao fim a história, Lygia permite que os leitores se deliciem com o rápido jogo do diálogo, fórmula amplamente explorada no livro anterior, e se sintam suspensos em êxtase com um daqueles finais de tirar o fôlego pela ausência de uma conclusão simples, pueril. No entanto, tudo muda a partir do que é proposto no segundo conto.
Em Senhor Diretor, Lygia parece dizer aos leitores que este livro vai trazer, além da arte da imaginação, facetas da linguagem ainda não exploradas por ela. Nesse conto, por exemplo, os grandes blocos textuais, as nuances que exigem dos leitores mais atenção para distinguir sutilezas entre narradora e personagem e a proposta de discutir os problemas sociais fora das entrelinhas mostram uma Lygia madura, mais refinada (ainda) na arte da brevidade. E isso acontece em outras narrativas ao longo do livro também, como os psicologicamente densos e sufocantes em seus pesados dramas A sauna, WM, Noturno amarelo e Seminário dos ratos. Juntas, essas cinco breves narrativas mostram um salto de qualidade dentro de uma obra que, até aquele momento, já era notável.
É claro que Lygia não foge do que lhe interessa. Muito pelo contrário. O fantástico e o sobrenatural estão presentes em contos dotados com uma boa dose de suspense, como os ótimos Tigrela, A mão no ombro, A presença e, é claro, o já citado Seminário dos ratos, que é uma bela sátira política. A loucura, tema tão caro à autora, e o humor se unem em A consulta, breve narrativa que, ao seu término, parece ter nascido como um clássico instantâneo. O amor, como o amor poderia faltar em um livro de Lygia? A descoberta dele é tema do excelente Herbarium, que fala do amor jovem, o amor platônico, esse que muitos de nós temos e que é amassado pelo implacável passar do tempo. Também temos a obsessão amorosa que nasce da não correspondência em Pomba enamorada ou Uma história de amor, um conto tão real que nem parece ficção. E é claro que também temos o trágico fim do amor em Lua crescente em Amsterdã, sobre um casal que percebe a infelicidade da ausência do inclassificável sentimento.
Os contos de Seminário dos ratos partem, no princípio, dos fios das sensações, daquilo que há de mais humano em cada um de nós. Lygia põe em seus contos aquilo que às vezes não conseguimos expressar em palavras. Não é uma bela contradição isso? É por isso que ao tratar de temas como loucura, morte, paixão, política, suicídio ou velhice Lygia arrebata leitores, até nos contos mais exigentes e cansativos, como foi para mim o caso de A sauna. E é assim, na solidão de uma leitura, que a autora faz a arte da literatura acontecer, nesse espaço íntimo e intocável de conexão entre a autora e seus leitores.