A narrativa no conto ''REVÉS'' muito me agrada pois tem características de um livro romance/drama com muitas situações onde a traição, o medo, a dúvida, a ganância e o poder se associam e deixam o clima da explanação muito mais simétrico e objetivo, com uma finalidade realista e muito comum no mundo corporativo. Os papéis desempenhados pelas personagens diferenciadas fazem com que as pessoalidades se completem perfeitamente. Há a personagem melancólica, o intérprete ganancioso, a figura traída, o figurante desafortunado e a escusa personalidade artífice e criminosa. Todos estes repassam, através da narrativa instigante, instantes infelizes num verdadeiro jogo onde o padrão social é o ápice de seus objetivos mundanos. ''No mesmo instante, Jonas percebeu olhos vermelhos de maldade. Ele se preparou. Novamente olhou à sua volta. Subitamente Jonas atentou-se ao ambiente e percebeu algo. Uma emboscada. Em um movimento rápido, sacou o seu pequeno revólver e disparou...''.
O conto é transitório e expulsa uma beleza tímida em sua maneira de ser narrado em terceira pessoa, característica muito importante pois não causa a tão receosa fadiga na leitura. O narrador muito interfere em um desfecho bem criativo (do autor) onde brechas para o uso interpretativo do leitor são abertas e causam a necessidade de um raciocínio lógico para a descoberta da personagem artífice. Será normal a interpretação final diferenciada de cada leitor. Particularmente, este é um dos tipos de finais que mais gosto.
Um mundo contornado por mentiras e ódio é repassado em poucos minutos de leitura. Isso faz o leitor querer mais. Sim, o conto poderia se tornar facilmente um prólogo bem atraente de uma longa história policial. O autor acertou em fazer o uso de uma linguagem simples para a apresentação de ''REVÉS''. Isso é fundamental para a fluência e fascínio do leitor.
É interessante notar que a narrativa é dividida em algumas partes. O narrador conta separadamente a trajetória de suas ilustres personagens durante certos momentos de suas vidas, interligando os fatos entre si e deixando o leitor bem à vontade para entender a quota final. Esse é também um diferencial bem plausível no conto. Apesar de ser um conto, o autor soube trabalhar de maneira impecável em seus personagens, indo além de características físicas e superficiais, dando noções perfeitas sobre o comportamento e pensamento de cada um, até mesmo daquele menos priorizado, como Diego, que quando bem analisado, toma um lugar muito importante e (quem sabe) crucial para o desenrolar da trama. Este é sem dúvidas um dos contos mais bem trabalhados de Luciano Otaciano. Outros assuntos sérios também são pauta em ''REVÉS'', que viaja pelo universo patológico, psicológico e social também: ''Helena aproveitava a viagem do filho para passar a noite se entorpecendo com as drogas que ingeria diariamente. Ela tomava calmantes fortíssimos sob orientação médica, e extrapolava na dosagem dos remédios... Ela disse a ele que na noite anterior havia visto o marido morto, perambulando pela imensa mansão''. Luciano tem uma facilidade para criar personagens femininas que marcam durante a leitura, e a melancólica Helena é mais uma a entrar para este time.
Um passado é revelado minutos antes do fim de ''REVÉS'' e gera um frenesi antes da leitura de um profundo poema escrito pelo protagonista (agora narrador participativo por alguns instantes). Ao entender do leitor, a entediante vida e as dívidas incalculáveis do mundo executivo são as grandes linhas motivadoras para que o enredo desse tão certo. Quem pensar assim, está mais do que correto em sua análise. Parabéns ao autor pela composição do conto.
''Em nossa existência, existem momentos cruciais onde é preciso jogar o jogo da vida. Se você não souber jogar, estará fadado ao seu próprio revés''.