Poesia completa -

    Zbigniew Herbert

    Lumen
    2012
    656 páginas
    21h 52m
    ISBN-13: 9788426421302
    Espanhol

    O Senhor Cogito sempre desconfiou dos ardis da imaginação do piano no cume dos Alpes do qual saíam notas falsas não apreciava os labirintos as esfinges inspiravam-lhe desgosto habitava uma casa sem cave sem espelhos nem dialéctica as selvas de quadros compulsivos não eram a sua pátria elevava-se raramente nas asas da metáfora para cair de seguida como Ícaro nos braços da Grande Mãe adorava tautologias a explicação idem per idem que o pássaro é um pássaro a servidão servidão o cutelo um cutelo a morte morte amava o horizonte plano a linha recta a atracção exercida pela terra 2 o Senhor Cogito será arrumado na categoria minores acolherá com indiferença o veredito dos homens de letras utilizava a imaginação para outros fins queria fazer dela um instrumento de compaixão desejava compreender a fundo – a noite de Pascal – a natureza do diamante – a melancolia dos profetas – a cólera de Aquiles – a loucura dos assassinos em massa – os sonhos de maria Stuart – o medo neandertaliano – o desespero dos últimos Aztecas – a longa agonia de Nietzsche – a alegria do pintor de Lascaux – a ascensão e a queda do carvalho – a ascensão e a queda de Roma de forma a ressuscitar os mortos e a manter a aliança a imaginação do Senhor Cogito segue um movimento pendular passa com precisão de sofrimento para sofrimento não tem lugar para fogos de artificio poético o Senhor Cogito quer permanecer fiel a uma incerta claridade O SENHOR COGITO E O PENSAMENTO PURO O Senhor Cogito esforça-se por atingir o pensamento puro ao menos antes de adormecer mas o esforço é o início do fracasso com efeito mal chega a um estado onde o pensamento é como a água uma grande água pura de uma praia impassível a água de repente encrespa-se e a onda traz latas madeira uma madeixa de cabelos na verdade o Senhor Cogito não está inteiramente imaculado não podia arrancar o seu olho interior da caixa de correio tinha nas narinas o odor do mar os grilos acariciavam a sua orelha e debaixo do cinto sentia a mão ausente era mediano como outros pensamentos dotados a pele da mão tocando os braços da poltrona uma ruga de sensibilidade no rosto um dia um dia qualquer logo que arrefecer atingirá o satori e será como aconselham os mestres vazio e surpreendente Olhando o fascinante fervilhar de ideias que cruza a nossa sociedade em todas as direcções: politicas, económicas, culturais, ocorre-me a influência nesse movimento da experiência do Senhor Cogito: e andam em círculos à procura de um grão … não mudam de lugar porque não têm aonde ir O SENHOR COGITO E O MOVIMENTO DAS IDEIAS As ideias passam pela cabeça diz uma expressão corrente a expressão corrente sobrestima a circulação de ideias a maior parte delas permanece imóvel no meio de uma paisagem pesada de outeiros ermos e árvores ressequidas por vezes atingem a corrente rápida de outro pensamento acampam na margem sobre um só pé como as garças famintas com tristeza recordam-se das nascentes secas e andam em círculos à procura de um grão não atravessam porque não chegariam a nenhum lado não mudam de lugar porque não têm aonde ir permanecem empoleiradas nas pedras torcendo as mãos debaixo do céu pesado e baixo do crânio Como o mundo não podia ser perfeito, o Senhor Cogito tem um problema com a sua alma: abandona o seu corpo vivo sem uma palavra de despedida durante meses durante anos diverte-se em outros continentes para além dos seus limites não é fácil saber onde se encontra não dá notícias mas nos dois poemas que seguem conheceremos não só a evolução do problema como o seu estado actual. A ALMA DO SENHOR COGITO Diz-nos a história que ela abandona o corpo quando o coração pára de bater com o último suspiro parte calmamente para as pastagens celestiais a alma do Senhor Cogito comporta-se de maneira diferente abandona o seu corpo vivo sem uma palavra de despedida durante meses durante anos diverte-se em outros continentes para além dos seus limites não é fácil saber onde se encontra não dá notícias evita contactos não escreve uma carta não se sabe quando regressará pode ser que tenha partido para sempre o Senhor Cogito quer superar os seus ciúmes primitivos pensa bem da sua alma pensa nela com ternura ela deve poder viver em outros corpos não há almas suficientes para toda a humanidade o Senhor Cogito aceita o seu destino sabe que não tem alternativa nem tenta dizer – a minha alma pensa na sua alma com afecto com uma terna solicitude e quando ela de repente regressa não diz – ainda bem que estás de volta olha apenas através do canto do olho como ela se senta ao espelho e penteia o cabelo – emaranhado e cinzento A POSIÇÃO ACTUAL DA ALMA DO SENHOR COGITO desde há algum tempo que o Senhor Cogito traz a alma no braço quer dizer pronta para voar colocar a alma no braço é uma operação delicada deve ser feita sem pressas febris ou cenas familiares de guerras evacuações cidades sitiadas a alma gosta de assumir varias formas agora é uma pedra crava as suas garras no braço esquerdo do Senhor Cogito e fica à espera pode abandonar o corpo do Senhor Cogito enquanto ele dorme ou pode partir à luz do dia em completa consciência breve como o assobio de um espelho quebrado por agora senta-se no seu braço pronta para voar

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover

    Estatísticas

    Avaliações

    0 / 0
    • 5 estrelas0%
    • 4 estrelas0%
    • 3 estrelas0%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%