A coloração local é o tempero que dá sabor ao rádio, notadamente ao rádio esportivo. Se sairmos de caderninho em punho, fazendo enquetes sobre os radialistas preferidos entre os torcedores de regiões variadas do país, muito provavelmente serão citados aqueles de suas próprias cidades, reforçando a relação quase familiar que os ouvintes estabelecem com as suas vozes prediletas.
Seguindo essa lógica, pode-se considerar Estevam Sangirardi, ou Sanja, como ficou mais conhecido, como um fenômeno tipicamente paulista.
Durante suas cinco décadas de carreira, Sanja atuou em diversas rádios da capital bandeirante, mas se destacou mesmo nas transmissões esportivas, onde nos anos 70, criou e apresentou o “Show do Rádio”, programa de humor que satirizava os eventos da rodada de futebol, contando com personagens que simbolizavam as torcidas dos grandes clubes de São Paulo. A atração é o título da obra de Carlos Coraúcci, ator e pesquisador, e sobretudo fã de Sanja.
O volume pode ser bem recebido por aqueles que, como o autor, acompanharam as peripécias de Sangirardi ao longo dos anos, mas para todos os demais, notadamente para os leitores de outros estados interessados em conhecer a história do personagem, o livro é de pouquíssima serventia.
Para começar, Coraúcci não é um escritor profissional, não que isso seja um requisito para se escrever um livro, mas, minimamente, deve existir uma certa organização na estrutura da obra para que o leitor capte as informações e essa é uma falha gritante de “Um Show de Rádio”. Frequentemente, o autor discorre sobre questões totalmente estranhas ao tema do livro, como se trechos de outra obra fossem ali inseridas ao acaso.
Há também um exagero em recorrer a extensas transcrições de roteiros e scripts dos programas, que podem ter funcionado quando transmitidos, mas que perdem muita força quando apenas lidos em letra de forma. A utilização de uma grafia “característica” da fala dos personagens também não ajuda.
Carlos Coráucci também não se furta de emitir, de forma um tanto exagerada, questionáveis julgamentos de valor em comentários relativos ou não à carreira de Sangirardi, o que compromete a já abalada credibilidade do trabalho. Ao descrever, por exemplo , a contratação do humorista Nelson “Tatá” Alexandre (que atuou no programa Perdidos na Noite, de Fausto Silva, nos anos 80), o classifica como “uma das maiores figuras humorísticas” da história do rádio e da TV...Em outro trecho, relaciona , na sua visão, os maiores técnicos da história do nosso futebol e omite o nome de Zagallo. Ao fazer o mesmo para os narradores esportivos do rádio, não toca no nome de José Carlos Araújo...
Por fim, fica a triste sensação de que o livro faz pouco para revelar aos paulistas mais jovens e ao resto do país, quem foi e qual a importância de Estevam Sangirardi (falecido em 1994, aos 71 anos. Estava afastado do rádio há dois) para o rádio de São Paulo. Talvez o único mérito da obra, e que a salva de uma cotação ainda menor, é o evidente entusiasmo do autor com a carreira e o universo de seu homenageado. Um livro de um fã que só deve ser lido por outros fãs.