MENOS QUE UM - JOSEPH BRODSKY
A voz poética do escritor Joseph Brodsky se funda nos vínculos entre o destino de ter nascido e crescido judeu na Rússia da segunda metade do século XX e a adoção da língua inglesa como uma pátria. A compreensão de sua obra instaura a necessidade de compreender as fraturas e cicatrizes de sua condição de exilado. “O exilio”, como nos ensina Edward Said, “é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada”.
“Menos que um” reúne 12 ensaios que desvelam, com mordacidade e um senso de irrestrito de franqueza, as concepções de mundo de Joseph Brodsky, e a forma como ele enxerga o fazer poético. Nelson Ascher, num artigo intitulado “O poeta que veio do frio”, afirma com razão que a prosa de Joseph Brodsky:
“É poética não por qualquer característica vaga ou etérea, mas por fugir, na sua organização, de um esquematismo que se associa erroneamente à lógica. Ambas, contudo, prosa e poesia, buscam a precisão e um tipo de objetividade que deriva de um auto-exame explícito e contínuo”.
Suas opiniões, contudo, não raras vezes são questionáveis, quando não conservadoras. No ensaio “Catástrofes no ar”, ao defender que a proximidade no tempo entre Dostoiévski e Tolstói “foi a coincidência mais infeliz da história da literatura russa”, ele acusa o mestre de Iasnaia Poliana de ter prejudicado o desenvolvimento posterior da prosa ficcional feita na Rússia. No texto “Para agradar a uma sombra”, dedicado ao seu mestre Wystan Hugh Auden, Brodsky afirma que Brecht foi um poeta ruim. Mas, a sua opinião mais contestável é a de que “arte e a ciência” não podem se guiar pela aplicação do princípio democrático.
Contudo, é importante reconhecer que há ensaios fascinantes e perspicazes sobre Anna Akmatova, Ossip Mandelstam e Derek Walcott. Ademais, é impossível ficar indiferente ao obituário devotado à Nadezhda Mandelstam (no Brasil, o livro “O que ela sussurra”, da Noemi Jaffe, é inspirado na história daquela formidável mulher russa), ao tributo à São Petersburgo – a cidade urbana mais linda desse nosso tão castigado planeta – e, principalmente, ao ensaio “Num quarto e meio”, dedicado à memória de seus pais.
Mesmo não concordando com a totalidade de suas opiniões, são esses textos comoventes que tornam a leitura de “Menos que um” capaz de nos gerar profundas reflexões sobre a tragédia e horrores do século XX