MISTERO BUFFO (1969), de Dario Fo; tradução e adaptação Neyde Veneziano.
O italiano Dario Fo (1926-2016) é considerado um dos mestres do teatro popular no seu país. Contudo, seu maior reconhecimento veio em 1997, quando foi agraciado com o Nobel de Literatura, por sua obra "que emula os bobos medievais no questionar da autoridade e no apoio à dignidade dos caídos".
MISTERO BUFFO é uma série de esquetes que abordam alguns temas bíblicos, através de um viés mais crítico. São histórias extraídas dos livros apócrifos - aqueles que a Igreja optou por deixar de fora da bíblia, por não considerá-los "divinamente inspirados". Quando do seu surgimento, em 1969, essas histórias foram severamente criticadas pelo Vaticano, que as considerou blasfemas.
Ao todo são cinco peças: "A ressurreição de Lázaro", "O milagre das Bodas de Canaã", "Moralidade do Cego e do Paralítico", "O Louco e a Morte" e "Os Crucificadores ou O Jogo do Louco debaixo da Cruz". Cada uma delas nos leva a refletir sobre a condição humana, através da crítica ao poder e à religião. De forma simples e irreverente, a subversão do texto bíblico acaba se constituindo em um poderoso instrumento de crítica social.
Fo nos apresenta versões mais humanizadas dos personagens bíblicos, repletos de contradições e fraquezas. Ao reimaginar essas histórias, ele também acaba dando voz aos marginalizados, aos trabalhadores e excluídos daquela sociedade. Seu humor é, assim, uma ferramenta contra as injustiças e desigualdades de antes e de agora, pois esses temas ainda ecoam nos dias atuais. Desse modo, Fo nos convida a questionar as verdades absolutas por meio do riso.