Infamous foi o primeiro texto que li em formato de roteiro, então foi uma experiência para a qual, inicialmente, eu não estava exatamente com boas expectativas, devido ao formato. Sou fã de descrições que nos fazem sair de onde estamos e nos envolver com o mundo do livro, e roteiros são muito parcos em descrições. Mas, como já conhecia a escrita do autor e a personagem principal era um escritor, eu arrisquei.
Li o livro em um dia, em um momento, com poucas pausas, involuntárias. Mesmo que um roteiro não seja rico em descrições e ambientações, as personagens dão conta de envolverem o leitor completamente dentro do universo configurado diante dos olhos. Nas primeiras dezenas de páginas eu já estava inserida lá, visualizando muito bem tudo o que estava acontecendo.
Trata-se de um editor infeliz com o ritmo de sua própria profissão e com o mercado de trabalho literário, descrente de que a literatura hoje em dia ainda seja "artística", ou que tenha essencialmente algo além de comércio e lucro. Ele não costuma beber, mas costuma visitar sozinho um bar, talvez para refletir sobre isso. E é lá que ele conhece Desmond, um escritor que é exatamente aquilo que ele poderia ansiar - alguém original e que escreve unicamente pelo prazer de escrever, e não por lucro - tanto que ele é desempregado e mal tem dinheiro para sustentar seu vício. Sim, porque ele é alcoólatra.
Mas a estória não se foca em um romance, não, longe disso. Ela se foca nas venturas e desventuras, internas e externas, que embalam a vida de uma pessoa. Elas se focam em alguém vazio, oco de esperanças, que não consegue mais acreditar em nada e em ninguém. Esse alguém é Desmond. Tão cheio de experiências, houve uma época em que ele já acreditou. Houve uma época - que é mencionada apenas de raspão no livro - onde ele tentou. Mas então ele não conseguiu. E depois disso, ele desistiu de maneira tão cabal, que sua visão sobre a vida, sobre o mundo e, principalmente, sobre si mesmo, foi alterada.
Mas Desmond não é uma personagem depressiva, não, longe disso. Desmond tem raiva. E pouco a pouco, durante o livro, Desmond vai se expandindo para além de si mesmo, vai deixando de habitar somente o seu próprio corpo, e vai contaminando tudo ao seu redor. Ele vive através de seus livros sombrios, cheios de raiva e desesperança, e, também, ele vive através de seu leitor. Seu único leitor. Seu critico literário e apaixonado por sua escrita. Seu tradutor para o francês, seu desejoso editor, aquele que queria que o mundo o conhecesse, da forma como ele conheceu.
Ver Desmond dói. É como ver alguém inteligente e lindo por dentro, mascarado por algo grosseiro e áspero. E essa máscara se tornou tão pesada que, no fim, ele se confundiu com ela, tornando-se incapaz de ver a si mesmo. Mas Kiyo o via, e essa visão lhe causava dor.
Se vc ainda não leu o livro, pare de ler essa resenha aqui.
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E bem, Kiyo foi o último a o ver. A questão é que, independente dos livros que Desmond deixou, ele permaneceu vivo através do seu único leitor. Porque Kiyo se tornou ele. Ele mesmo diz que, nós nos tornamos ainda mais parecidos, com aquilo que não admiramos. E definitivamente, Kiyo não o admirava. Desde o primeiro encontro, ele reclama de sua grosseria. E ele encerra o livro falando com a voz de Desmond, que cumpriu em si mesmo a ameaça que julgou que seria o outro a fazer.
Mas era ele. Era Desmond quem deixaria de existir se Kiyo deixasse de o amar, se Kiyo deixasse de acreditar nele e de escrever sobre ele. Mas Desmond permaneceu vivo, mesmo depois de seu velório, quase vazio.
Infamous é o tipo de livro que eu não vou reler, porque não posso reler. É aquele livro que te despedaça de uma maneira boa e ruim, ao mesmo tempo. E eu vou guardar o volume na minha casa, e olhar para ele na minha instante, mas não vou reler. Porque seria doloroso demais isso. Doloroso demais ver o que o Desmond fez a si mesmo, e fez a todos ao seu redor. Ele te dá aquela vontade insana de mergulhar na leitura e ir falar com a personagem, mesmo que talvez, nada do que você pudesse dizer, iria mudar alguma coisa. E isso é o pior.
Salpicado por pessimistas filosofias, com um final sombrio e subliminar, Infamous fala sobre um escritor infame, provando que, na sociedade atual, almas cheias de sonhos muitas vezes são esmagas pelo próprio peso deles.
"Porque a vida é uma merda. Tudo o que você pode esperar da vida é merda. (...) Os feitos geniais de alguns humanos não tornam esses humanos gênios, "sobre-humanos". (...) Porque a vida é isso: É uma festa com balões d'água de camisinhas sobrando de gente imaginária que tá transando num outro andar. E sempre vai ter mais camisinhas do que pessoas, por qualquer razão, aliás. E infelizmente."