“Os cães são criaturas leais. Os cães nos tornam mais humanos, ou mais próximos do que imaginamos como deveria ser um bom ser humano.”
“Procura-se Meu Melhor Amigo” de Pauls Toutonghi conta a jornada extraordinária de um animal de estimação perdido e a família que o trouxe de volta para casa, na verdadeira história excepcional de amor incondicional entre um canino e sua família, baseada em fatos reais.
Em outubro de 1998, Fielding Marshall e seu cachorro, Gonker, um Golden Retriever de seis anos, estavam caminhando na floresta ao longo de um trecho da ‘Trilha dos Apalaches’. Por algum motivo, o cachorro desaparece depois de correr para a floresta.
O canino tem a doença de Addison – que pode ser fatal se ele não for encontrado imediatamente, pois ele toma medicamentos controlados. Fielding e seu pai começam as buscas para reencontrá-lo.
Em casa, a mãe, Virginia, também ajuda ligando para todas as pessoas e todas as agências que de alguma forma podem ajuda-la. É então que a família percebe que há uma possibilidade de encarar o fato de que Gonker pode ter ido embora para sempre.
Para qualquer um que já tenha tido contato com um animal de estimação, perde-lo pode ser um trauma devastador. Toda família, ao que parece, tem aquele único animal de estimação — aquele que é diferente de todos os outros — aquele que de alguma forma se torna consagrado na tradição familiar.
É o mais destrutivo, ou o mais doce, ou aquele que faz a coisa mais dramática. Armários de cozinha são vasculhados, sofás são roídos, edredons são rasgados. Um para-lama de carro é arranhado, uma doença é superada, uma habilidade incomum é dominada. Há uma profunda singularidade nesses animais.
Eles não são humanos, mas é parte do motivo pelo qual são incríveis. De dentro de si mesmos, eles invocam algo que confirma sua individualidade, sua vivacidade e vigor, seu domínio sobre uma presença profunda e duradoura em nossos corações e mentes.
Foi muito interessante que o autor iniciou sua história contando-nos a triste infância de Virginia Marshall, a mãe do dono do cão desaparecido. Virginia estava com dificuldades na escola, tinha acabado de reprovar na quinta série, em parte por causa da morte de seu cachorro, seu amado e travesso akita, Oji.
Em uma manhã ensolarada no início do verão, ela foi acordada por um peremptório sacudir de ombro. Antes mesmo de estar totalmente consciente, ela sentiu o cheiro do gim — aquele cheiro acre de zimbro — e tentou se enterrar mais profundamente no travesseiro. Sua mãe tinha decidido que iria interna-la no sanatório. Sua mãe era alcoólatra e seu pai era negligente.
Entretanto, o médico do asilo ao ouvir os desabafos da criança, e este momento é realmente extraordinário, estendeu a mão sobre a mesa para a menina aconselhando-a sair da casa dos seus pais e procurar outro lar para viver bem e saudável.
Ela, com doze anos na época, fez a única coisa que conseguiu pensar, ligou para o pai de seu pai, seu avô Munson. Cinco dias depois, foi morar com ele em Arlington longe de sua problemática família.
Mas uma coisa ainda a assombrava e era a terrível saudade do seu amado cãozinho. Quando ela fechava os olhos à noite — ou mesmo durante seus momentos mais calmos durante o dia — Virginia ainda sentia falta de seu amado akita.
A coisa que mais a machucava era simples: Oji tinha simplesmente desaparecido. Desaparecido. Ela nunca teve a chance de dizer adeus. Ela carregou para sempre a dor de nunca ter se despedido de seu amado akita.
Perceberam a destreza da narrativa de Toutonghi? Ele iniciou a história nos levando a infância da mãe, que novamente irá reviver os monstros do passado por conta do desaparecimento de Gonker. Eu achei absolutamente formidável essa linha narrativa do autor porque justificam as ações da personagem sem precisar nos dizer explicitamente.
Comentei num dos meus históricos de leitura desse livro que Virginia tinha todo o meu coração porque ao conhecermos seu passado cheio de desgostos e dor, criamos consequentemente um vínculo não só com ela, mas também com a sua família.
Entretanto, ela é a personagem mais carismática do romance porque é o coração em torno do qual a história gira.
O pai, John Marshall é um paizão de primeira grandeza. Adorei sua atitude positiva diante de toda a situação, que prenunciava os piores resultados. Mas não era uma positividade tóxica, delusional, dessas que nos aborrecem nos dizendo frases bíblicas e condescendentes. Ele era realista, mas era esperançoso dentro do que seu raciocínio e sua lógica permitiam ser.
Mesmo com todas as estatísticas provando que Gonker pode sim vir a morrer por estar perdido nas ‘Trilhas dos Apalaches’, ele é o único que consegue manter firme a esperança de que tudo vai acabar bem.
O filho, Fields Marshall, o dono do cãozinho sapeca, é um jovem adulto muito bebezão, sem responsabilidade alguma, porém, cativante e bastante crível, muitas de suas atitudes lembraram meus irmãos mais novos que eu, acredito que por isso ele acabou me conquistando. Ele também guarda umas das revelações mais triste da história.
Aliás, Fields e Virginia são as duas personagens que vivenciam traumas terríveis e o destino lhes pregou a mesma peça: o desaparecimento de seu mais fiel amigo, um cachorro. Virginia que perdeu Oji, seu adorável Akita e Fields, que perdeu Gonker, seu belíssimo Golden Retriever.
Por fim, quero lhes contar meu momento favorito dessa história canina: o capítulo três. O autor dedicou-se a nos contar a história de Hachiko, por aqui entre nós ocidentais conhecido por causa do filme estadunidense chamado “Para Sempre ao Seu Lado”.
Sim, admito que me debulhei em lágrimas lendo esse capítulo. Pareceu-me tão injusto. Não achei certo tudo o que Hachiko sofreu esperando seu ‘dono’. Com a Virginia sucedeu-se o contrário: ela viveu a vida toda esperando o retorno do seu amado cão akita, Oji.
“O akita mais famoso, sem sombra de dúvida, foi Hachiko. Chu-ken Hachiko (o fiel cachorro Hachiko) pertencia ao doutor Hidesaburo Ueno, professor de engenharia agrícola na Universidade de Tóquio.”
Foi um capítulo breve, curto. Mas que guarda uma grandeza enorme do autor em ter dedicado umas páginas de seu livro para contar de Hachiko. Inesquecível!!!
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