A partir do final dos anos 1950, o termo deriva é associado ao seu uso em âmbito situacionista, apontando para um engajamento social e político que caracteriza, até hoje, a maioria das obras que utilizam o ato de andar como seu elemento central. A poiado numa ampla pesquisa da produção artística nacional e internacional das últimas cinco décadas, Jacopo Crivelli Visconti traça relações entre obras criadas em contextos e épocas distintos, com o intuito de evidenciar algumas características recorrentes nas derivas, ao mesmo tempo que são contextualizadas em tendências mais gerais, como a que visa a desmaterialização da arte, ou a chamada estética relacional, entre outras. Dessa forma, Novas derivas aponta de maneira inequívoca para a estrei ta relação entre "revolução e marcha, algo que o próprio termo ´movimento´, no cruzamento altamente simbólico de suas diversas acepções, explicita de maneira evidente".
Novas Derivas (Mundo da Arte) -
Jacopo Crivelli Visconti
Novas Derivas - resenha crítica
Jacopo Crivelli Visconti reúne aqui diversas ações que se assemelham conceitualmente a deriva situacionista proposta por Guy Debord. Constituídas como “novas derivas” por ocorrerem após o Movimento Situacionista se aproximando da contemporaneidade, se desenvolvem imersas em um universo definido como “relacional”. Nicolas Bourriad cunha o termo: Estética Relacional, onde constrói uma percepção poética pautada nas relações humanas e sociais, visando novas possibilidades de convivência. A deriva artística é apresentada, conceituada, relatada, registrada, narrada, mobilizada e movimentada por diversos artistas em suas plurais manifestações. O autor exemplifica como um acontecimento rizomático. O cerne dessas ações, o produto final das derivas é o espaço da criação. E esse espaço é vazio e só nesse vazio haveria possibilidade criativa. Um espaço imaterial de pensamento. Os artistas caminhantes direcionavam-se ao desaparecimento em busca da experiência, à fugacidade do materialismo estético capitalista, à efemeridade do cotidiano, à transitoriedade e aceitação do tempo, mas não o tempo cronológico, sim o tempo vivido. Esse tempo vivido seria a espontaneidade da caminhada, o momento onde não há conceitos, só os passos, a velocidade, o mundo ao redor, esse instante pregnante, a essência da deriva, passaria despercebido à proposta do caminhar pois, é justamente no alheamento do objetivo que se vivencia a deriva. Aqui encontramos um ponto paradoxal: se a verdadeira deriva não é percebida aos nossos sentidos, os registros narrados, fotografados, desenhados, mapeados, fabulados, etc., feitos conscientemente pelos artistas caminhantes, conteriam apenas o resumo da ação, a sua limitação, estaríamos diante do que se representa como trabalho, seu simulacro e não sua autenticidade; e a memória de quem experiencia a deriva seria o único e verdadeiro registro, mas essa memória também é mutável e suscetível à transmutação. O capítulo seguinte discute uma nova possibilidade: o movimento invisível da imaginação. José Lezama Lima, elabora esse tema se referindo às ações de artistas caminhantes da América Latina, que em suas construções de narrativas diferem-se dos ideais norte americanos ou europeus. Seus universos possuem caráter fantástico-onírico, não anulam a realidade mas sobrepõem-se á ela, e os artistas buscam torna-los acessíveis ao seu público, trazendo à ideia, uma multiplicação de interpretações, pois o trabalho é visível e vivido, através do movimento do observador e do movimento do objeto. Já os últimos, geralmente apresentam uma ou outra característica, incapazes de incorpora-las em conjunto. O movimento é o elemento central das poéticas e proposições, filosóficas e sociais dos indivíduos participantes dessas ações. Quando há interação desses indivíduos, caminhamos ao ideal de uma nova sociedade, já que o corpo individual e pessoal passa a fazer parte da esfera pública e do conflito entre poder e indivíduo. Rebecca Solnit explica que “[...] andar é apenas o início da cidadania, mas através desse ato o cidadão conhece a sua cidade e os outros cidadãos, e passa a habitar realmente a cidade, e não uma pequena parte privatizada dela. [...] É possível que resida aqui a chave para a passagem de uma atividade individual, o ato de andar sozinho, para a escala relacional da deriva como ato social, e portanto intrinsecamente político: “’para as ruas’ é o clássico grito da revolução urbana, porque é na rua que as pessoas se tornam o público, onde fica seu poder” (SOLNIT, 2000, p. 176) Como conclusão, só poderíamos atribuir significado e poder a um trabalho de arte, mesmo imaterial, através da aproximação da vida banal e cotidiana - aproximando-se assim da sociedade - e das movimentações e inter-relações entre indivíduos que se encontram e desencontram nesse entre meio.
Estatísticas
Avaliações
4.3 / 8- 5 estrelas50%
- 4 estrelas25%
- 3 estrelas25%
- 2 estrelas0%
- 1 estrelas0%






