Entrar
    Skoob logo

    Saiba mais

    Quem somosTermos de usoFale conoscoCentral de ajudaPrivacidade

    Fique por dentro

    Livros em destaque

    Explore

    LivrosAutoresEditorasLeitoresCortesias

    Siga nas redes sociais

    Baixe o app

    Google PlayApp Store
    Book cover
    Compartilhar
    Editar
    • Sinopse
    • Edições4
    • Vídeos0
    • Grupos0
    • Resenhas312
    • Leitores8639
    • Similares5

    A bela e a fera -

    Clarice Lispector

    Rocco
    1999
    110 páginas
    3h 40m
    ISBN-10: 8532509479
    Português Brasileiro
    4.2
    2450 avaliações
    Leram4077Lendo362Querem4085Relendo9Abandonos106Resenhas312
    Favoritos171Desejados4085Avaliaram2450

    Este livro póstumo de contos, A bela e a fera, apresenta ao leitor duas Clarices: a primeira, uma jovem aflita, com imaginação de extrema vitalidade, que, aos 14 anos, começa a inventar histórias e a escrever contos insólitos que têm como marca a expressão de intensos impulsos emocionais. Clarice Lispector perdera pouco antes sua mãe, que já conhecera paralítica. A menina de 1940 carregava uma dor dupla: a perda da mãe, com quem mal pudera se relacionar, e o martírio de não tê-la salvo da enfermidade ao nascer, conforme a previsão dos médicos. Foi neste contexto que, a partir de 1940, surgiram os contos da primeira parte do livro: "História interrompida", "Gertrudes pede um conselho", "Obsessão", "O delírio", "A fuga" e "Mais dois bêbados". São temas leves de menina, como a adolescente ansiosa para "resolver" seu amor por aquele rapaz estranho, bonito e triste de "História interrompida". Ou a luta de Gertrudes por ajuda para a melancolia em cartas que escreve a uma médica consultora de um jornal em "Gertrudes pede um conselho". Mas o sofrimento é de gente grande, dores maduras, que a autora cultivava há muito tempo, apesar dos poucos 14 anos. Mas nem assim Clarice perde o humor. Os ensaios de Clara para pedir ou apenas comunicar seu casamento com W. são hilariantes, e sem dúvida compartilhados por todas as adolescentes do mundo. Mas o desfecho trágico W. se mata, antes da declaração da amada é só de Clarice Lispector. A amiga, colaboradora e companheira dos últimos anos de vida, Olga Borelli, explica que estes contos da adolescência não foram publicados antes porque, na verdade, Clarice não sabia o que era exatamente um conto, mas tinha intuição do que era um anticonto: "Talvez ela entendesse mais de anticonto, porque se considerava antiescritora", diz Olga na apresentação do livro. A esta característica, Clarice atribuía a não publicação de seus trabalhos de pré-adolescente, enviados para a seção de contos infantis de O Diário de Pernambuco. O jornal só publicava histórias que, segundo Clarice, começavam com "Era uma vez, e isso, e mais isso, e depois aquilo..." Olga Borelli lembra que Clarice costumava dizer que só escrevia quando "a coisa vem" . E foi assim que vieram os dois contos escritos em seus últimos meses de vida, em 1977 : "Um dia a menos" e "A bela e a fera". Este último, segundo Olga, nascido de uma visão dilacerada do encontro de uma dondoca com um mendigo ferido em Copacabana. A desgraça do mendigo da ferida aberta chocou a socialite, não apenas por lhe ter provocado um forte clamor por justiça social, mas por perceber que a ferida do mendigo era real, ao passo que ela sequer existia. Era uma alma penada pairando pelos salões e encobrindo com jóias um infinito vazio. Sua ferida era o nada.

    Edições (4)

    Ver mais
    • book cover
    • book cover
    • book cover
    • book cover

    Similares (5)

    Ver mais
    • book cover
    • book cover
    • book cover
    • book cover
    • book cover
    Resenhas (312)Ver mais
    Kakau picture
    Kakau31/08/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    “Hoje compreendo-o. Tudo lhe perdoo, tudo perdoo aos que não sabem se prender, aos que se fazem perguntas. Aos que procuram motivos para viver, como se a vida por si mesma não se justificasse.”

    “Ele era triste e alto. Jamais falava comigo que não desse a entender que seu maior defeito consistia na sua tendência para a destruição. E por isso, dizia, alisando os cabelos negros como quem alisa o pelo macio e quente de um gatinho, por isso é que sua vida se resumia num monte de cacos: uns brilhantes, outros baços, uns alegres, outros como um “pedaço de hora perdida”, sem significação, uns vermelhos e completos, outros brancos, mas já espedaçados. Eu, na verdade, não sabia o que retrucar e lamentava não ter um gesto de reserva, como o seu, de alisar o cabelo, para sair da confusão. No entanto, para quem leu um pouco e pensou bastante nas noites de insônia, é relativamente fácil dizer qualquer coisa que pareça profunda. Eu lhe respondia que mesmo destruindo ele construía: pelo menos esse monte de cacos para onde olhar e de que falar. Perfeitamente absurdo. Ele, sem dúvida, também o achava, porque não respondia.” “A Bela e a Fera”, de Clarice Lispector, talvez seja uma das obras em que mais se evidencia a insistência da autora em capturar o instante revelador, esse momento súbito em que a consciência se ilumina e se expande. A narrativa conduz o leitor a uma viagem pela mente, explorando o que parecia inexplorado justamente em razão de sua aparente trivialidade, mas que se revela, paradoxalmente, como abismo e revelação. Publicado originalmente em 1979, o livro reúne contos que recusam qualquer simplificação alegórica: em vez de parábolas modernas, o que se abre diante de nós é um exercício de desconstrução da noção de “simples”, revelando a potência perturbadora de um olhar que transfigura o cotidiano mais banal em experiência existencial. Aquilo que parecia trivial ― uma moça atravessando a rua, a monotonia dos dias, um pedido aparentemente despretensioso de conselho, subitamente se converte em confronto radical entre aparência e essência. O gesto mínimo, quase imperceptível, basta para desestabilizar certezas e romper fronteiras: entre distância social e proximidade, entre indiferença e revelação. O leitor não permanece espectador: é convocado a participar da cena, a compartilhar o estranhamento e o assombro. Em última instância, trata-se de uma obra que interroga a existência em sua totalidade: a monotonia, o sentido (ou sua ausência), o lugar do outro, o atravessamento do machismo, a multiplicidade de fatores que compõem o viver comum. Clarice, mais uma vez, nos revela que o extraordinário não se encontra além, mas pulsa no âmago daquilo que julgamos ordinário. Perderá o sentido viver se for apenas pelo temor daquilo em que todos parecem oscilar, presos entre o monótono incômodo que corrói silenciosamente. Será esse, então, o único propósito que encontrou? Ou sequer se permitiu pensar sobre isso? Viver por viver, como tantos parecem fazer, buscando um sentido qualquer apenas para justificar estar onde estão. Mas por onde eu vim? Por onde você veio? Não enxerga o vazio de simplesmente estar aqui? A vida se multiplica em pequenas mutações que nos diferenciam dos outros, mas nos mantêm iguais na essência de sermos humanos. Vivemos sempre o mesmo do mesmo. Nascemos de nossas mães, crescemos, tornamo-nos crianças, depois seguimos em um crescimento incessante até a eterna classificação: adultos. E então, descansar, comer, dormir, trabalhar. Descansar, comer, dormir, trabalhar... Vive-se para dormir, para assim trabalhar, para assim comer. Um ciclo que se repete, momentos diferentes, mas sempre iguais. Para muitos, a vida é apenas isso: nascemos com propósitos quase prontos, impostos antes mesmo de escolhermos. Casar, ter filhos… certo? Mas adivinhe: todos antes de você ouviram o mesmo, pensaram o mesmo, repetiram o mesmo, como se a ideia sequer tivesse surgido de si. Existe realmente um caminho inexplorado, ou todos já foram percorridos? Se não há diferença, o novo torna-se símbolo inexistente. Você é uma multiplicação entre milhares, vivendo em histórias tão semelhantes que a própria existência parece insignificante. É isso que deseja ser? O anoitecer chegará, e o vento tocará seu rosto, o mesmo vento que já moveu as folhas das árvores infinitas vezes, numa música sufocante entre sentidos e desesperos. Você já as viu tantas vezes, não? Todos já viram. A eternidade pertence aos que pensam pouco, a vida, àqueles que não percebem que um dia deixarão este plano, e o mundo, aos que se contentam com o mesmo propósito. É um ciclo incessante, um ciclo incessante de desespero existencial absoluto, silencioso. Já se deixou levar a pensar tanto que palavras como “eternidade”, “vida”, “mundo”, “Deus” parecem já não significar nada? Ou será que, na verdade, nunca significaram de fato, e apenas nos acostumamos a repeti-las, como quem repete um mantra vazio? A vida segue em ciclos: você acredita viver por algo, por um propósito que o sustenta; mas, se esse algo se perde ou se revela incerto, sua alma se torna pesada, calejada, cansada de procurar o que talvez nem exista. E então, o que realmente muda entre estar vivo ou não? Pensa-se tanto que todas as possibilidades de viver parecem já esvaídas, e ainda assim nada atrai. Que sentido tem a passagem pelo mundo se até a morte jaz igual para todos? Se, ao fim, passamos, que sentido teve minha dor? Que valor houve em cada lágrima, em cada angústia que carreguei? Minha paz foi perturbada desde o instante em que abri os olhos pela primeira vez, como se o próprio nascimento já fosse uma condenação. E você, ainda que seja diferente de mim no rosto, no corpo, no nome, é tão semelhante na essência. Somos moldados de formas distintas, mas habitamos a mesma prisão. Vivemos como nossos pais, que viveram como os pais deles, que repetiram o caminho dos pais de seus pais. Um círculo que não se rompe. Uma vida que se copia. Tire-me desse desespero! Pois não encontro respostas para as perguntas que me consomem e corroem a pouca paz que tento preservar. Se não vejo sentido em ser quem sou, como poderia enxergar sentido no outro? Como compreender W..., que escolheu abandonar este mundo de maneira tão trágica aos olhos humanos, mas tão comum quando se observa de perto o peso de existir? Que sentido teve a sua passagem pela terra? Que significado havia em sua dor? Qual o fio invisível que amarra tudo isso às palavras “Eternidade. Vida. Mundo. Deus.”? Talvez não haja nenhum. Talvez a ausência de sentido seja, por si só, o único sentido. Ou, quem sabe, o sentido não exista da forma como acreditamos, e nós, humanos, infelizes por natureza, insistimos em inventar um. Procuramos sem cessar... mas será que ele realmente existe? Que grande ego é esse que te devora diariamente? Já pensaste, de fato, em todos os caminhos pelos quais poderias caminhar? Se o desejo é ser grande... Mas afinal, o que é esse “grande”? Tudo, no fim, se desfaz. Escoa por entre os dedos como areia fina, mesmo quando mal se chegou a tocar na imensidão. Esvai-se com o tempo, esse que nunca cessa, e também com a mente, que jamais se satisfaz com o simples. Não gosto de nada. Ou talvez goste? Você gosta? Pensamentos, pensamentos... não cessam um instante sequer. São egoístas! Quase me irritam com sua insistência, como ruídos que rasgam o silêncio da madrugada em um mundo onde silêncio, de fato, não existe. Como poderia eu me contentar com a monotonia? Você é feliz? Como poderia eu ser feliz, quando a tragédia se tornou tão banal? Pensamentos, pensamentos... “Tanta gente morrendo, tantas crianças sem lar...” E ainda assim, sorri, sorria, dizem. “Olhe como o mundo é belo, veja os pássaros cantando, sinta o cheiro do pão quente.” Mas me pergunto: quando foi a última vez que aquele homem sentado na calçada teve um pão para si? Quanta mentira, quanta brutalidade. E no entanto, claro, estou bem. Todos os dias são ótimos. Veja como o sol brilha. Pensamentos, pensamentos... Preferes viver na ignorância? Deve ser feliz, não? Mas como poderei eu, ser feliz? Posso ser enfermeira e salvar vidas. Posso ser veterinária e socorrer animais. Posso fundar um projeto social, criar um convento, ajudar os pobres. Salvar, salvar, salvar. Ou posso não salvar nada, ignorar tudo, e ainda assim proclamar: “Que felicidade! Não preciso de ninguém! Sou tão plena em minha solidão. Olhe meu sorriso... tão radiante.” Ignore a lágrima, talvez eu ainda esteja aqui. Ou talvez nunca tenha existido. Como poderei, então, ser feliz? Pensamentos, pensamentos... eles não cessam. Possibilidades, ambiguidades, contradições. Sou uma, ou várias? Sou nada, e ainda assim sou tudo. Já decidi pelo suicídio, mas já não quero mais. Você quer? Talvez todos queiram, talvez ninguém queira. Estou sorrindo. É felicidade? Você também a enxerga? Ou apenas imagina? A felicidade existe? Ou é só outro nome para a tristeza? Talvez seja ambas, fundidas. Uns dias mergulhados no tédio, outros inundados por uma alegria quase insuportável. Mas será minha essa alegria, ou será sua? Ou será da criança que corre e brinca na rua sem saber das tragédias que carrego? Não sei se posso suportar tamanha alegria. Veja. Escute. Desde o início, não era “ela” quem falava, era eu. Mas, afinal... quem é “ela”? Sou eu? Ou eu sou ela? “Tudo me parecia porém estéril. Ele era um homem difícil, distante, e o pior é que falava francamente de seus pontos fracos: por onde atacá-lo então, se ele se conhecia? O nascimento de uma ideia é precedido por uma longa gestação, por um processo inconsciente para o gestante. Assim explico a minha falta de apetite no jantar magnífico, minha insônia agitada numa cama de lençóis frescos, após um dia atarefado. Às duas horas da madrugada, enfim, nasceu ela, a ideia.” Para mim, é extremamente curioso e fascinante observar como Clarice Lispector consegue tecer suas histórias, conectando linhas de pensamento que parecem surgir tanto do consciente quanto do inconsciente. Aqui, por exemplo, temos os dois primeiros contos: “História Interrompida” e “Gertrudes pede um conselho”. Em “História Interrompida”, somos confrontados com um questionamento profundo: como posso viver no monotônico, no já esperado, se isso sequer me desperta desejo de viver? Afinal, como poderei suportar a vida quando tudo ao redor parece repetitivo, previsível, quando todos nós, de certa forma, esperamos as mesmas coisas? Como resistir ao desespero quando a vida perdeu para mim a cor, a graça e o sentido? Perder o sentido da vida é, de certa forma, declarar a própria morte que inevitavelmente virá, aguardada, como um destino silencioso. Já em “Gertrudes pede um conselho”, somos levados aos extremos da monotonia e do destino, observando o que o inesperado pode trazer de tão comum em nossas vidas. Surge a inquietante pergunta: ainda há algo, alguma possibilidade que não tenha sido explorada? Como ser feliz quando a infelicidade parece permear cada caminho, cada decisão? Neste conto breve, mas intenso, sentimos a ambiguidade pulsando a cada instante: a personagem nos transporta para uma experiência tão completa e tão paradoxal que não se sabe se devemos nos sentir aliviados ou angustiados. Que dor de cabeça! Que paz! Estou simultaneamente feliz e triste. Clarice nos leva ao extremo de tudo, numa viagem tão profunda que mal conseguimos prever nossa própria reação. Ela é confusa, desconcertante, ao ponto de não sabermos exatamente como nos reconhecer diante de seus textos. Começar a ler Clarice Lispector é, portanto, entregar-se à permissão e à autosabotagem: permitir-se mergulhar em pensamentos que podem desestabilizar, e ao mesmo tempo, saber que algo dentro de você está prestes a ruir. Talvez eu já esteja em ruínas... Afinal, quem sou eu? Que dor de cabeça! Diante de uma vida tão imposta, até que ponto a criação pode afetar alguém? Até que ponto a infância, a adolescência, e todas as experiências pelas quais uma menina, uma mulher passa, podem moldar quem ela se torna, num mundo tão injusto, marcado por divisões de gênero? Nós, mulheres, muitas vezes nascemos com papéis pré-estabelecidos. Crescemos ouvindo, vendo e aprendendo que, cedo ou tarde, nosso destino é estar com um homem, gerar filhos, queríamos ou não. É isso que a sociedade patriarcal espera de nós: que sejamos servas, que nos curvemos, que nosso valor esteja sempre ligado a outro, àquilo que podemos oferecer, e não ao que podemos decidir por nós mesmas. Vivemos num sistema que sexualiza a menina antes mesmo de ela nascer. Onde o natural é obedecer e não comandar. Onde o comando, muitas vezes exercido com violência, é sempre do papel masculino. E, mesmo na violência, sempre há uma maneira de culpar quem está no papel de vítima. Até que ponto a repressão e os papéis impostos podem levar alguém a agir de forma robótica? Ou a sofrer de maneira tão mecânica que a própria existência se torna uma repetição sem sentido? O que você faria se não pudesse pensar por si mesma? O sistema teme a mulher que pensa. Sempre temeu. E se chegasse a acreditar que ela jamais teria consciência suficiente para isso? Pois é exatamente isso que a história do patriarcado nos mostra: mulheres apagadas, ideias roubadas, ambições sufocadas, corpos e mentes subjugados, persuadidos a acreditar que nem ao menos poderiam pensar.A verdade é dura: muitas mulheres são criadas para acreditar que não têm autonomia intelectual. Que não podem decidir, não podem questionar. O machismo corrompe os neurônios; a manipulação destrói qualquer forma de ser que não foi ensinada a se amar primeiro. Até onde a submissão te levará? Talvez ao esôfago. Às moscas. Mas talvez nem as moscas zumbem mais no seu ouvido, querida mulher que não pensa. Ou foi exatamente isso que ele te falou? Em “Obsessão”, vemos o quão prejudicial é não assumir a própria vida. De acreditar que somos apenas extensões de outros, ferramentas para sustentar, reproduzir, servir. Transformar-se em algo irreconhecível diante do próprio reflexo. Tornar-se inconsciente de si mesma, como um veneno que mata lentamente. O machismo corrompe os neurônios, e a manipulação apaga memórias, apaga sonhos, apaga a própria essência. O poder de ensinar, de aprender, de se lembrar, e de não esquecer, é fundamental. Sinto-me sem chão ao escrever isso… Talvez triste demais para buscar sentido. Mas, se olharmos bem, o sentido existe. Toda dor tem sentido quando se olha, de frente, nos olhos de uma mulher. Olhe nos olhos de uma mãe, de uma avó, de uma tia. Talvez aquela não seja a vida que ela escolheu. Talvez tenha negligenciado o que realmente queria, e, de repente, a vida se mostrou curta demais para tanta infelicidade. Olhe para aquela mulher da sua família que nunca trabalhou, que pouco estudou, e veja além. Pois um dia, essa mesma mulher teve sonhos. Sonhos que nunca foi ensinada a cultivar. Sinta essa tristeza. Está triste? Eu estou. “Mas o que é, afinal, uma noite? Um curto espaço, especialmente quando a escuridão diminui tão cedo, e tão cedo um pássaro chilreia, um galo canta ou um verde desmaiado se aviva, como uma folha revirada no oco de uma onda. A noite, entretanto, sucede à noite. O inverno guarda uma boa safra delas em estoque e as distribui igualmente, imparcialmente, com dedos infatigáveis. Elas aumentam; elas escurecem. Algumas delas mantêm no alto planetas límpidos, placas de luminosidade. As árvores outonais, devastadas como estão, trajam o clarão de bandeiras esfarrapadas ardendo na escuridão dos frios porões de catedrais onde letras douradas e páginas de mármore descrevem a morte na batalha e contam como, muito longe, os ossos desbotam-se e queimam nas areias indianas. As árvores outonais cintilam à luz amarela do luar, à luz das luas de colheita, a luz que suaviza a energia do trabalho, e amacia o restolho.” Clarice Lispector nos mantém entre o delírio e a fuga. Deliramos em suas palavras, ao mesmo tempo em que tentamos escapar de seus sentidos, claros para uns, confusos para muitos. O óbvio nos dói intensamente, pois raramente olhamos para ele com a atenção e a intensidade que ele nos exige. A busca por entender é constante, muitas vezes até irônica. Afinal, como ousar compreender o próprio delírio de uma mente em fuga permanente? A escrita de Clarice, como já observei, é um território onde a mente se transforma em corpo e espírito. O que acontece, simplesmente acontece. O que é, apenas é. Ou talvez deva-se questionar? Questione sem medo. O tradicional aqui é esquecido e, ao mesmo tempo, acolhedor, pois o desconhecido muitas vezes se revela como o conhecido ainda inexplorado. Cada frase parece pulsar com uma vida própria, cada palavra vibra com a intensidade da percepção humana, e cada silêncio que se forma entre elas ressoa como um eco do nosso próprio interior. Ler Clarice, acima de tudo, é permitir-se mergulhar no abismo da consciência, aceitar que não haverá respostas fáceis e que a própria dúvida se transforma em conhecimento. Suas obras nos convidam a tocar o invisível, a olhar para o que ignoramos em nós mesmos, a perceber que o banal é, muitas vezes, o mais extraordinário quando visto com a atenção de quem sente profundamente. É fascinante, ainda que desafiador, experimentar o prazer de mergulhar nesse universo de palavras. Eu desconfio que a morte vem. Morte? Será que uma vez os tão longos dias terminem? Você acredita que um dia os dias possam realmente terminar, ou que tudo cesse como quem apaga uma vela? Muitos ignoram essa verdade, ou talvez apenas não se dêem conta de que, um dia, não estarão mais aqui para reclamar, para se queixar de cada instante, de cada respiração que pesa sobre o corpo ― dia e noite, noite e dia, sempre repetindo-se num ciclo interminável. Depois. Depois? E depois… existirá o “após”? Que dor de cabeça! Qual será a beleza da vida, se, ao final, só nos resta encarar a fera ― monstruosa, faminta, capaz de devorar a própria consciência? Estou delirando! Delirando! Mas qual seria o propósito disso tudo? De onde ele vem? Quem é ele, afinal, que nos coloca nesse jogo de espera e de angústia? Não suportando a monotonia, não suportando as injustiças, vivendo para aqueles que só enxergam a ignorância. Que mundo é este, onde uma mulher não consegue simplesmente viver, sem que desejem sua morte como se fosse um ato inevitável, natural, previsto? Que delírio é este que me consome, que me corrói por dentro! Que obsessão pela morte habita em mim, sorrateira, silenciosa, constante. Estou fugindo, embriagada de tristezas, perdida em pensamentos que giram como redemoinhos, sem ponto de chegada. Um dia a menos a cada instante, um instante a menos em cada dia. Viver na beleza da fera… será possível? Virarei agora, talvez sem perceber. Estou viva? Assustador, não é, como um livro, podem abrir tantas portas para reflexões tão intensas e profundas? Eu também estou assustada com a verdade. Assustada, assustada! Considerando minha jornada por Lispector, achei que meu livro favorito já estava definitivamente escolhido, e que nenhum outro poderia destroná-lo. Mas eu estava completamente enganada. Essa percepção só se confirmou quando comecei a ler esta obra. Senti-me profundamente emocionada. Na verdade, chorei da página quarenta até o término de “A Bela e a Fera”. Experimentei uma transcendência completa, e é absolutamente fascinante perceber o quanto é difícil hierarquizar obras tão boas, justamente por serem tão excepcionais. Embora não tenha conquistado o primeiro lugar em meu ranking pessoal, ficou com o segundo, e isso, por si só, já torna a experiência de leitura incrivelmente marcante. Posso afirmar, sem hesitar, que este livro foi uma surpresa maravilhosa ― daquelas que chegam silenciosamente e conquistam de forma arrebatadora. Recomendo-o imensamente, especialmente para quem aprecia histórias que tocam profundamente e permanecem no coração por muitos anos. Memórias que simplesmente não se apagam. Repetindo: recomendo-o, recomendo-o, recomendo-o imensamente, divas(os)! Meu pequeno ranking dos contos da obra: 1. Obsessão (5,0). 2. História interrompida (4,5). 3. Gertrudes pede um conselho (4,0). 4. Um dia a menos (3,5). 5. A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais (3,5). 6. Mais dois bêbedos (3,0). 7. A Fuga (2,5). 8. O Delírio (2,5). “― Este é um momento? Pergunta em voz bem alta. Não, já não é mais. E este? Já agora também não. Só se tem o momento que vem. O presente já é passado. Estire os cadáveres dos momentos mortos em cima da cama. Cubra-os com um lençol alvo, ponha-os num caixão de menino. Eles mor-reram crianças ainda, sem pecado. Eu quero momentos adultos!... Moça, aproxime-se, eu quero lhe confiar um segredo: moça, que é que eu faço? Me ajude, que minha terra está murchando... Depois o que vai ser de minha luz?”

    258 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.2 / 2450
    • 5 estrelas38%
    • 4 estrelas38%
    • 3 estrelas20%
    • 2 estrelas4%
    • 1 estrelas1%
    Clarice Lispector profile picture

    Clarice Lispector

    Clarice Lispector, nascida Haia Lispector (Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora brasileira, nascida na Ucrânia. Autora de linha introspectiva, buscava exprimir, através de seus textos, as agruras e antinomias do ser. Suas obras caracterizam-se pela exacerbação do momento interior e intensa ruptura com o enredo factual, a ponto de a própria subjetividade entrar em crise. De origem judaica, terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector. A família de Clarice sofreu a perseguição aos judeus, durante a Guerra Civil Russa de 1918-1921. Seu nascimento ocorreu em Chechelnyk, enquanto percorriam várias aldeias da Ucrânia, antes da viagem de emigração ao continente americano. Chegou no Brasil quando tinha dois anos de idade. A família chegou a Maceió em março de 1922, sendo recebida por Zaina, irmã de Mania, e seu marido e primo José Rabin. Por iniciativa de seu pai, à exceção de Tania – irmã, todos mudaram de nome: o pai passou a se chamar Pedro; Mania, Marieta; Leia – irmã, Elisa; e Haia, Clarice. Pedro passou a trabalhar com Rabin, já um próspero comerciante. Clarice Lispector começou a escrever logo que aprendeu a ler, na cidade do Recife, onde passou parte da infância. Falava vários idiomas, entre eles o francês e inglês. Cresceu ouvindo no âmbito domiciliar o idioma materno, o iídiche. Foi hospitalizada pouco tempo depois da publicação do romance A Hora da Estrela com câncer inoperável no ovário, diagnóstico desconhecido por ela. Faleceu no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu 57° aniversário. Foi inumada no Cemitério Israelita do Caju, no Rio de Janeiro, em 11 de dezembro.

    135 Livros
    7.101 Seguidores
    Vinnytsia, Ucrânia

    Clarice Lispector