Antologia de Contos - Retratos do Brasil pré-modernista e modernista

    Danielle C. Carvalho, Alexandre P. Piccolo

    Lazuli
    2016
    288 páginas
    9h 36m
    ISBN-13: 9788578651145
    Português Brasileiro

    Contos de norte a sul do Brasil aqui reunidos apresentam variados retratos nacionais dentre os anos 1890 e 1940. As lendas do boto e do lobisomem, os causos do interior mineiro e goiano, as lembranças de infância, as surpresas e reviravoltas dos pampas gaúchos, o encanto das novas tecnologias, os perigos da capital carioca, o frenesi urbano, enfim, diferentes histórias compõem um panorama multifacetado, que aguarda o olhar atento do leitor moderno a adentrar o país. Os autores: Mário de Alencar * Júlia Lopes de Almeida * Afonso Arinos * Machado de Assis * Arthur Azevedo * Lima Barreto * Olavo Bilac * Coelho Netto * Figueiredo Coimbra * Domício da Gama * Simões Lopes Netto * Antônio de Alcântara Machado * Raymundo Magalhães * Urbano Duarte * Raul Pompéia * Hugo de Carvalho Ramos * Garcia Redondo * João do Rio * Inglês de Souza

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    jota 1112/09/2020Resenhou um livro
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    Avaliação da leitura: 3,2/5,0 – BOM (mas não entusiasma muito)

    São vinte e quatro contos de dezenove autores de diferentes regiões do país, cobrindo praticamente todo o território nacional com suas histórias. Antes da publicação elas foram revisadas e organizadas por Danielle Crepaldi Carvalho e Alexandre Prudente Piccolo: eles pretenderam exibir retratos da vida brasileira entre 1890 e 1940, período que em nossa literatura antecedeu o modernismo. Carvalho e Piccolo conseguiram trazer para essas páginas um tanto da alma brasileira, jeito de ser de nossos antepassados, modos de viver, pensar e agir, alguns dos quais permanecem em nossos dias. Embora alguns contos se desenrolem em regiões urbanizadas (especialmente no Rio de Janeiro e São Paulo, centros então muito diferentes do restante do país), o Brasil que deles emerge é essencialmente de mentalidade rural (vide capa), com personagens apegados à religiosidade e às crendices populares, levando uma vida extremamente simples, de poucos atrativos, quase sempre voltada para o trabalho árduo. Ouvir música através de um fonógrafo, por exemplo, era um prazer tão grande que parecia coisa de outro mundo. Que espantava mais do que lobisomem ou boto... Ler também não era algo tão rotineiro assim para os brasileiros daquele tempo. Não havia tantos cidadãos letrados por aqui: a parcela escolarizada e erudita da população era bem pequena na virada do século XIX e nos anos iniciais do XX, destacam os organizadores. As necessidades básicas dos demais brasileiros não incluíam a leitura de livros, fato que ocorre ainda hoje em grande escala. Os autores selecionados (e outros do período), falavam apenas para uma pequena camada privilegiada da sociedade, escreviam numa linguagem empolada, usavam muitos termos estrangeiros, termos regionais e outros desconhecidos pela maioria. Demonstravam grande erudição e talvez pouca preocupação em se comunicarem com as camadas mais baixas do povo, muitas vezes personagens de seus textos, não leitores deles. Tanto é assim que os organizadores prepararam um glossário de várias páginas para que o leitor de hoje entenda não apenas certos termos usados no passado, mas também outros, bastante eruditos: sem isso ele certamente precisaria fazer várias consultas ao dicionário para plena compreensão das narrativas. Apesar de variadas, não são muitas as histórias que podem ser realmente consideradas muito interessantes (ponto de vista do leitor), destacando-se apenas alguns autores e textos já bastante conhecidos. Casos de Arthur Azevedo, Machado de Assis e Lima Barreto, abusadamente repetidos em coletâneas de autores brasileiros. Perdi a conta das vezes que li O Plebiscito (Azevedo); é a quarta vez que leio Conto de Escola (Machado) e minha quinta leitura de O Homem que Sabia Javanês (Barreto). Neste, um conto pleno de ironia e sarcasmo, é irresistível a frase de Lima, que passados tantos anos permanece verdadeira como definição de nosso país: “Neste Brasil imbecil e burocrático...”. Por aqui pouca coisa mudou: podemos ser modernos em muitos setores (em consumo de eletrônicos, por exemplo), mas o país em si mesmo permanece terceiro-mundista, com uma agravante: parece ser o mais corrupto do mundo. Desse modo, o volume pode interessar a quem estuda a relação entre literatura e sociedade: o material é farto para a pesquisa de estudantes de letras, história e sociologia. Os contos oferecem a possibilidade de se conhecer visões de nosso passado também por meio da ficção, não apenas através de fontes históricas. Se não me entusiasmei muito com essa viagem a um Brasil antigo, mas não tão distante assim, tampouco me decepcionei com o conteúdo do volume. É uma boa coletânea, de fato. Eis os autores e suas histórias: Mário de Alencar - Coração de velho Júlia Lopes de Almeida – A caolha Afonso Arinos - Pedro Barqueiro Machado de Assis - Conto de escola Arthur Azevedo - De cima para baixo; O Epaminondas; O plebiscito Lima Barreto - O homem que sabia javanês; A nova Califórnia Olavo Bilac - A canabina Coelho Neto - Os pombos Figueiredo Coimbra - Diálogos: No Animatógrafo Super-Lumière Domício da Gama - Só Simões Lopes Netto - Trezentas onças Antonio de Alcântara Machado - Apólogo brasileiro sem véu de alegoria; Gaetaninho Raymundo Magalhães - O lobisomem Urbano Duarte de Oliveira - Gangorra Raul Pompeia - Tílburi de praça Hugo de Carvalho Ramos - Ninho de periquitos Garcia Redondo - O fonógrafo João do Rio - Dentro da noite; O homem da cabeça de papelão Inglês de Souza - Baile do judeu Lido entre 06 e 10/09/2020.

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