Este romance mostra certa habilidade em contar uma história sem se perder em divagações e descrições e sem largar o fio da ação, mantendo um ritmo adequado a maior parte do tempo. O problema maior é o de concepção e construção dos personagens.
Desde os primeiros capítulos, os personagens parecem estereotipados e superficiais. A única personagem que chega a ganhar um pouco de substância e verossimilhança é Iallanara, o resto não avança. Não é obrigatório que personagens de um livro desse tipo sejam tridimensionais e profundos, mas é preciso ao menos torná-los concepções bidimensionalmente consistentes e interessantes (como é o caso, por exemplo, da maioria dos personagens de "Senhor dos Anéis").
A protagonista, Galatea, me parece vazia de características humanas. É uma mistura mal-sucedida de princesinha de conto de fadas (sempre ajudada a atingir seus objetivos por amiguinhos e bichinhos simpáticos) com paladina de RPG (o que, neste caso, exige apenas uma obediência e uma fé demasiado fáceis e uma “bondade” que acaba se mostrando hipócrita).
Não mostra nenhum estofo, nenhum desejo ou pensamento próprio, apenas uma fé cega na missão - que poderia ser mais interessante num contexto mais duro e realista, mas não nessa fantasia na qual pessoas e deuses saem do nada para ajudá-la sempre que ela precisa. É como um personagem de videogame que segue a proposta de reunir três runas sagradas para derrotar o chefão, sem questionar ou duvidar, porque é assim que é o jogo e tendo a certeza de que vai encontrar, a cada dificuldade, a ajuda de que necessita para passar à próxima fase.
Iallanara é uma boa exceção, uma personagem que sente, pensa e deseja, que tem problemas, dúvidas e emoções verossímeis. Mereceria ser a protagonista. Gawyn ameaça por momentos ter vida própria, mas rapidinho se enquadra de novo no clichê de meio-elfo despreocupado e sem compromissos e de alívio cômico simpático. Os demais personagens são estereótipos de RPG, que só existem para ajudar ou atrapalhar o cumprimento da missão. Os outros conformam-se em bater carimbo, servindo burocraticamente às etapas do "jogo".
A impressão que tive é que Iallanara tem razão desde o começo: Galatea é uma menininha mimada brincando de ser paladina. A inveja da Bruxa Vermelha, nesse caso, é uma forma imperfeita e primitiva de senso de justiça. Galatea não sobreviveria um só dia, não faria nada sem dois ou três Deus ex Machina (literais ou figurados) aparecendo a cada momento para protegê-la, tirá-la das enrascadas, curar seus machucados na hora e lhe dizer o que fazer. Não é competente nem para enfrentar um ladrão de galinhas sem ajuda, apesar do suposto treinamento, da armadura, da espada e dos poderes que a deveriam torná-la uma combatente muito superior, ao menos em relação a não-magos.
Trata-se, supõe-se, de fé, mas de uma espécie falsa. Mesmo quem é religioso há de convir que a fé não funciona dessa maneira, se tiver bom-senso. Não basta ser uma menininha boazinha, obedecer aos mais velhos e acreditar no papai do Céu (ou no dragãozinho do Céu) para que todos os problemas sejam resolvidos. Claro que é parte da fantasia realizar o impossível, mas de maneira que pareça verossímil a um leitor com alguma experiência da vida e de suas inevitáveis contradições. A magia pode ser rotina e cidades podem flutuar no ar, mas ainda assim deve haver escolhas difíceis, uma oração nem sempre vai salvar o herói de uma dificuldade para a qual ele não se preparou ou planejou o suficiente, nem sempre aparecem amigos ou desconhecidos para fazer milagres e às vezes se quebra a cara tentando fazer o bem ou obedecer às autoridades legítimas.
Principalmente escolhas difíceis. Na vida real, raramente se tem a oportunidade de escolher entre o mal absoluto e o bem absoluto, se é que isso existe. Escolhe-se, o mais das vezes, entre o bem ético e o bem dos próximos (suborno o funcionário do SUS para conseguir tratamento mais rápido para a mãe doente?), entre o mal que parece maior e o mal que parece menor (candidato X ou candidato Y?), entre um dever e outro (atendo ao amigo que precisa de ajuda ou entrego em dia o trabalho que prometi?) etc. Galatea nunca tem de fazer escolhas realmente difíceis. Quando a resposta não é óbvia, alguém lhe diz o que fazer.
Ao longo da história, a própria bondade de paladina de Galatea acaba parecendo falsa. Ela recebe muito mais do que dá. Sempre que ela ajuda ou salva alguém, é de uma maneira que acaba revertendo em benefício para ela e sua missão – ela nunca faz o bem de maneira realmente gratuita ou que possa prejudicá-la. Por exemplo, parece só querer salvar a criança portadora da runa porque isso é parte da missão e vai lhe dar um novo poder (e nem tomaria conhecimento da irmã e dos companheiros de escravidão do garoto se eles não lhe caíssem literalmente nos braços). Só ajuda Iallanara porque “alguém” lhe diz que isso vai ser útil. O autor parece querer dar a impressão de que compensa fazer o bem, mas as coisas acontecem de maneira tão pronta e automática que dá a impressão de que, pelo contrário, só se deve fazer o bem se isso vai valer a pena.
É curioso que a única vez na história que uma tentativa de fazer o bem leva a contradição é quando Gawyn tem o impulso de ajudar o que parece uma mendiga sendo roubada e depois violentada. Ele, e não Galatea, que só vai atrás para ajudá-lo depois que ele a convence, como se aquilo lhe parecesse indiferente. Apesar de usar armadura, precisa ser salva pelo amigo meio-elfo de uma adaga arremessada pelo bandido ladrão de galinha. Quando o meio-elfo arremessa a arma de volta ao dono e ele morre envenenado, nem passa pela cabeça dela, que tem o poder de ressuscitar os mortos tentar curá-lo – e mais tarde só faz isso, no caso de Robarff, porque, mais uma vez, “algo” lhe sopra na orelha que vai valer a pena.
Ela nunca parece sentir autêntica compaixão. Não se detém para pensar no irmão que foi sequestrado pelo pior inimigo, sequer para rezar por ele (parece só estar pensando na runa e nos pontos de XP a ganhar). Sequer pensa na égua ao deixá-la para trás, esquece-a como se fosse um lenço descartável e não pensa mais no assunto. Claro que os deuses corrigem rapidinho sua distração e lhe devolvem (imerecidamente) a cavalgadura quando ela precisa.
Mas o que realmente revela Galatea como hipócrita é a cena de tortura de Robarff. Para mim e para todos que enfrentaram a questão a sério, há pouca diferença moral entre uma tortura ameaçada e uma real – e é muito, mas muito covarde delegar a tortura a alguém que se oferece e até tem prazer nisso -, mas ela não vê problema nenhum, se essa parece a maneira mais óbvia de conseguir informação (em vez de, digamos, usar a cabeça ou a magia). Nem sequer é um último recurso, é apenas o primeiro que lhe ocorre.
Um ponto desagradável é o preconceito de classe implícito em toda a história, ainda que provavelmente inconsciente. Os príncipes e nobres (não contando, é claro, os monstros “do mal”) são, em geral, belos, bons, sábios e respeitáveis, a menos que sejam dominados por forças malignas de fora; os plebeus, tolos, preconceituosos, egoístas e um pouco ridículos, a menos que sirvam e obedeçam cegamente à heroína e sua família real. A criança a ser salva, portadora da runa, é nobre – quando uma mendiga e seu filho parecem precisar de ajuda, é uma armadilha. A mensagem que a história parece transmitir a todo momento é que os privilegiados, salvo exceções, merecem ter a vida e os privilégios protegidos – inclusive o de levar a fama por tudo que os amigos e deuses fazem por eles - e os pobres têm de sofrer e obedecer para que possam um dia reencarnar numa posição social melhor.
Fora isso, há a anotar as pequenas inconsistências. Um rei que sabe que tem como pior inimigo um bando de vampiros e insiste em viajar pela floresta à noite. Gente do campo que trata e monta uma égua por vários dias e ainda a confunde com um cavalo. Uma armadura que ora não pode ser posta sem ajuda e parece terrivelmente pesada, ora é tão fácil de usar e vestir quanto uma camiseta, ora é invulnerável, ora parece inútil, conforme convenha ao que o autor quer no momento. Há também vários erros gramaticais e falhas de narrativa que um bom editor competente não deveria ter deixado passar.