Este texto será menos um resumo do que um diálogo com o falecido filósofo iluminista e, para começar a discussão, utilizarei dois trechos, os que considerei mais impactantes no livro, um de caráter voltado para a ética e outro que me servirá para construir a argumentação.
“Meu filho, lembra-te de que não há felicidade sem virtude”, disse o benevolente e sábio Freind a seu filho Jenni. Voltaire, em Histórias de Jenni (ou O Ateu e o Sábio), trava uma batalha entre seu conceito deísta e o ateísmo. Para isso, primeiramente, constrói Freind, defensor de sua visão crítica contra as religiões e a falta de Deuses, como um ser humano em que não podemos encontrar um erro sequer. Consiste na criação de um objeto para basear seu Argumentum ad Verecundiam. Foi, sem dúvida, um argumento poderoso, mas ilógico, visto ser uma falácia. Também procura construir Argumentuns Ad Hominem, retratando o grupo de ateus com que Jenni começou a se relacionar como sendo seres imorais, sem limites por não crerem na punição divina. Este é o primeiro momento do livro: imputação de valores aos indivíduos de acordo com suas crenças.
Em um segundo momento, Voltaire, por meio da figura de Freind, expõe a Birton, representante do ateísmo, suas premissas para a veracidade e necessidade da existência de um ser divino: o design inteligente e a origem metafísica da moral. Costumo dizer que as três visões mais sensatas são o ateísmo, o deísmo e o agnosticismo. O que separa as duas primeiras é justamente a diferença no seu entendimento de dois assuntos, quais sejam, como surgiu o cosmos e a origem da moral. Para o ateísmo, o universo simplesmente surgiu, diria eu, em um primeiro momento graças a flutuações quânticas responsáveis pela existência da matéria e, periodicamente, intermináveis choques entre dimensões causados pela aproximação e o afastamento das mesmas graças a presença de matéria escura e energia escura, como proposto pela teoria das supercordas, o que acho mais sensato do que a teoria da grande explosão. Quanto a moral, ela teria origem na evolução do ser humano: seria um mecanismo impeditivo da autodestruição da espécie. A moral procura nos passar comandos que inibam a individualidade e exaltem o coletivo. E aí volto para a primeira frase que emprestei do autor e que converge com a ideia de Russel sobre a conduta humana: não há felicidade sem virtude. Creio que existe um mecanismo de recompensa hormonal aos atos que beneficiam o próximo, que fazem com que nos sintamos bem ao ajudar nossos iguais, uma visão mais provinda de uma filosofia analítica do que de uma teoria com base factual.
Para o Deísmo, como em todas as religiões que conheço, nós temos as supracitadas respostas a essas duas perguntas: design inteligente e moral de origens supernaturais. O design inteligente consiste na afirmação de que o universo não poderia ser produto do acaso, visto que encontramos a perfeição, a complexidade em tudo que vemos: mesmo nos seres mais pequenos, podemos notar que as estruturas que o formam parecem ter sido feitas para atenderem necessidades específicas, como nos elucidaria mais poeticamente do que eu William Paley em seu argumento do relojoeiro. Digo que, se tivesse nascido na época de Voltaire, seria seduzido prontamente por este argumento, mas hoje nós temos explicações para tudo isso. O Neodarwinismo nos explica, a partir da ideia de seleção natural e de mutações gênicas, o porquê de todos os animais parecerem ter sido feitos para o ambiente em que vivem, para a sua realidade. Os camelos não foram criados para viver no deserto, os camelos adaptaram-se ao ambiente com o passar do tempo. Mas e quanto ao universo observável? Aos planetas, que parecem seguir uma dança cósmica predeterminada? À segunda lei da termodinâmica e sua propriedade entrópica, que afirma que as coisas tendem da ordem para a desordem? Como um universo que, de acordo com a própria ciência, teria um fim terrível com fótons espalhados por uma imensidão preenchida somente por buracos negros e anãs brancas pode ter se desenvolvido em uma realidade tão fantástica? Para responder a essa pergunta cito Leonard Susskind e sua teoria das cordas. De acordo com ela, teríamos infinitos universos com as infinitas possibilidades de ocorrência dos eventos. Sucede que, em nosso universo, as flutuações quânticas produziram, no momentos certo, uma quantidade certa de partículas fundamentais de força (grávitons, bósons W, fótons e glúons), um equilíbrio que permitiu a harmonia em nossa realidade.
Quanto à moral, nós, criações de um ‘’relojoeiro divino’’ teríamos, implantados em nossas almas, princípios, preceitos de boa convivência de acordo com a vontade do criador. Eu, você, Deus, como criador de tudo que existe, não gostaria que nosso trabalho se destruísse sozinho. Para evitar o indesejável, colocaríamos mecanismos que impedissem este futuro: os mandamentos morais, em nosso caso. Quanto a esse assunto, já expus suficientemente minha convicção de uma origem genética da moral, mesmo que não consiga acreditar em mim mesmo às vezes, não tendo certeza sobre o assunto, podendo este sistema, a meu ver, ser uma construção cultural.
A segunda frase que prometi utilizar-me no começo do texto é a seguinte: ‘’ esqueçamos os sonhos dos grandes homens, e lembremo-nos das verdades que eles nos ensinaram’’. Diria que seria um ato de covardia meu tentar vencer Voltaire com conhecimentos que ele não tinha, com ciência de séculos à frente. Afirmo, sem vergonha disso, que não conseguiria, na época em que ele escreveu Histórias de Jenni, rebater seus argumentos: ele com certeza venceria em um debate. Por isso, termino este texto vendo o que de bom foi-nos dito, o que não foi destruído pelas areias do tempo e da iluminação científica. Primeiramente, a meu ver, o Deísmo é a mais perfeita crença na existência de Deus. Ela se baseia em conceitos morais não predeterminados, mas colhidos da convivência dos homens com os homens e da leitura de diferentes textos, tanto de natureza filosófica quando as escrituras das mais diferentes religiões. O homem tem de se conscientizar de que fazer o bem é o melhor, tanto para si quanto para o todo, e nada melhor para isso do que procurar você mesmo preceitos que atendam a essa máxima. A ideia é fazer o bem, e não fazer o que nos foi dito em livro X ou Y. Segundo, a ideia de que as religiões não são a melhor maneira de se alcançar o bem. De acordo com o pensamento de Voltaire, o bem só é alcançável pela plena compreensão de que existe um ser que te punirá pelas condutas más e te recompensará pelas boas. Esta ideia independe de um culto que, tanto na época dele quanto atualmente, parece apenas acumular poderes e influenciar decisões políticas de coisas que não tiveram procedência lógica em sua construção. Por fim, não posso afirmar que a minha teoria sobre o surgimento do universo seja a correta, mesmo que me pareça em todos os sentidos possíveis corresponder à realidade. A ciência ainda não tem certeza (o que me parece uma expressão equivocada, já que a ciência não costuma ter certeza sobre suas teorias, visto que elas têm de ser falseáveis) sobre isso, e eu não defenderei fanaticamente uma ideia ou outra sem certeza de sua veracidade. É possível mas, no meu ponto de vista, improvável que o universo tenha sido construído por um designer inteligente.