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    Formação do Império Americano - da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque

    Moniz Bandeira

    Record
    2005
    851 páginas
    1d 4h 22m
    ISBN-10: 8520007198
    Português Brasileiro
    4.5
    22 avaliações
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    Luiz Alberto Moniz Bandeira consegue empreender, em Formação do Império Americano (da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque), um estudo profundo e abrangente tanto de história como de ciências políticas, no qual demonstrou que a prática não confirmou a teoria de que o imperialismo representava "o prelúdio da revolução social do proletariado", e que estava "às portas de sua ruína, maduro até ao ponto de ceder o posto ao socialismo", tal como Lenin acreditava; foi confirmada, no entanto, a hipótese de Karl Kautsky, que previu em 1914 o advento de uma outra etapa: a do ultra-imperialismo. Tal etapa previa que as potências industriais, assim como as empresas do mercado, terminariam por se unir e formariam uma espécie de cartel, deixando de competir pelas armas; e as guerras, para o consumo do material bélico, passariam a ocorrer somente com ou nos países mais atrasados, na periferia do sistema capitalista. Orientado pelo princípio de que o conhecimento do presente depende do conhecimento do passado, ou seja, do conhecimento histórico, Moniz Bandeira analisa o processo de internacionalização/globalização do capitalismo e sua evolução para o ultra-imperialismo, sob a hegemonia dos Estados Unidos, consolidada após duas grandes guerras mundiais nas quais a Alemanha saiu derrotada e a Grã-Bretanha e a França extremamente enfraquecidas. Com base na própria documentação americana, o autor esquadrinha as mais solertes e ilícitas manobras de líderes políticos e chefes de governo, assim como desvela conexões entre a política doméstica e a internacional nos Estados Unidos e os procedimentos adotados na formação e expansão do império. Pretextos foram manufaturados para a deflagração de guerras; a ameaça da União Soviética e do comunismo foram amplificadas sob o contexto da Guerra Fria, a fim de fomentar o armamentismo e finalmente instalar, após o colapso do Bloco Socialista, uma ditadura planetária, visando a superar a contradição fundamental entre a dimensão econômica do capital, globalizado, e a estreita dimensão territorial dos Estados nacionais. Daí a necessidade da guerra perpétua, infinita, e a relevância de se fomentar um clima de permanente intimidação e constante terror.

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    João Moreno19/01/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A democracia do Império

    O livro não é só sobre a história dos Estados Unidos. É sobre os fatores e os processos que permitiram ao país estadunidense alçar-se à condição de império, já ao final da Segunda Guerra Mundial. Moniz Bandeira, o autor, historiador e cientista político, escreveu 'Formação do Império Americano' no calor do Governo Bush, da Guerra ao Terror e da invasão e destruição do Iraque. Tentar "compreender explicar o processo de perversão da democracia" norte-americana (p. 31) foi um de seus objetivos. Para tanto, precisou voltar lá atrás, na formação histórica do país, que, com o sentimento de "predestinação", guiados por Deus, sempre impôs seus interesses aos demais: primeiros aos povos originários, na expansão rumo ao Oeste, depois junto à América Latina, com a Doutrina Monroe, e, já durante o entreguerras, ao restante do mundo, com seu modelo político e econômico via instituições multilaterais e militarismo, muito militarismo. “A tendência para o messianismo nacional, que marcou a formação e impregnou a cultura do povo americano, renovou, entretanto, uma tradição judaica resgatada pelo fundamentalismo bíblico dos puritanos que emigraram para a América, imaginada como a terra prometida. O povo americano, do mesmo modo que os israelitas, passou a considerar-se o mediador, o vínculo entre Deus e os homens na Terra. (…) O sentimento de grandeza e de superioridade conformou desde os primórdios parte da identidade dos Estados Unidos." (p. 28). Por falar em militarismo e como ele foi fundamental ao desenvolvimento da economia estadunidense, com 'Formação do Império Americano' nos familiarizamos com o termo "Complexo Industrial-Militar" (o qual se originou no final do século XIX com o entrelaçamento de empresas privadas financiadas pelo Estado a fim de expandir a frota naval norte-americana) e como ele vai designar o motor da sua economia. Com o avançar das décadas, esse Complexo ganha força e autonomia, financiando eleições, ditando a noção de democracia, impondo as doutrinas de guerra, definindo a atuação da política externa. Quanto à política externa, a obra de Moniz Bandeira é muito clara: a formação histórica e a forma como enxerga a si como nação determinaram o papel do país mundo à fora. Para a América Latina, a Doutrina Monroe faz dos latinos um contratempo aos interesses americanos estadunidense na região. Para os consolidar, inúmeras ações coloniais no século XIX e início do século XX foram protagonizadas. A partir da Segunda Guerra Mundial, entra a CIA, as ações encobertas, o terrorismo de Estado, o financiamento de milícias, a subversão do processo democrático quando os escolhidos são contrários aos interesses estadunidenses. O ciclo de ditaduras militares do final dos anos 1950 aos anos 1970 é resultado dessa política, baseadas em muito anticomunismo, responsável pela repressão interna (red scares e macarthismo) e externa. Com o fim da Guerra Fria, a justificativa "luta contra o comunismo internacional" perde força e o Complexo Industrial-Militar precisaria de novas razões para os seus gastos e sua existência. É aí que 'A Formação do Império Americano' nos "ilumina" quanto aos conflitos contra o narcotráfico e as disputas em torno do Oriente Médio, "problemas" (sic) criados e geridos pelas potências ocidentais desde antes da Primeira Guerra. Obviamente, como aprendemos na obra, nunca se tratou da busca de regimes democráticos, mas sim da imposição de governos favoráveis aos interesses norte-americanos e a utilização racional dos recursos naturais desses países (para a racionalidade norte-americana, obviamente). Já ao final do livro, o autor dá ênfase à virada da extrema-direita dentro do governo Bush, eleito "mediante um golpe judicial", que contou com o apoio da elite financeira. O governo Bush esteva unido pelos interesses do Complexo Industrial-Militar, dos neocons, dos fundamentalistas evangélicos, das indústrias petrolíferas, da extrema-direita israelenses (Likud), "negocistas e traficantes de influência", membros do Carlyle Group. Estes tinham a intenção de redesenhar o papel dos EUA no mundo. Foi assim que criaram a mentira das armas de destruição em massa no Iraque, motivo para se invadir o país, com interesse também na privatização do petróleo iraquiano. "(...) o Iraque era vital para o fluxo do petróleo do Oriente Médio, porque se assentava sobre a segunda reserva mundial (em volume), da qual os Estados Unidos necessitavam por motivos de segurança econômica, e não podiam permitir que Saddam Hussein a explorasse por motivos de segurança militar (...) (posição 9689). Apesar de quase vinte anos, 'Formação do Império Americano' já pontuava as contradições do país. É possível falar em declínio? Se for, "(...) a queda do Império Americano será tão vertiginosa e dramática quanto a sua ascensão" (p. 23). Se o professor de Economia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Nildo Ouriques estiver correto - que estudar a história dos Estados Unidos é importante para entender a realidade do capitalismo mundial e do capitalismo brasileiro periférico -, a obra de Moniz Bandeira me parece fundamental. Como latino-americano, após o seu texto, ter um posicionamento anti-imperialista parece-me o único caminho possível. “Esse desprezo dos Estados Unidos pela soberania dos outros povos, o unilateralismo de sua política internacional, o militarismo, a prepotência e a arrogância, a pretensão de reformar o mundo à sua imagem e semelhança, o pretexto de promover a democracia como rationale para a deflagração ou para a participação em guerras não afloraram como consequência dos atentados de 11 de setembro de 2001. Não surgiram repentinamente. São tendências que remontam não a mais de meio século, como alegou Robert Kagan, associado sênior da Carnegie Endowment for International Peace e um dos ideólogos da extrema-direita americana, mas aos primórdios da fundação dos Estados Unidos.” (p. 31).

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    Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira

    Cientista político e historiador brasileiro, especialista em política exterior e relações internacionais do Brasil. Foi cônsul honorário do Brasil na cidade alemã de Heidelberg.

    29 Livros
    21 Seguidores
    Bahia, Brasil

    Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira