Seguindo minha série de resenhas dos tomos de ‘Persepolis’ e retomando algumas ideias que eu abordei nos textos sobre os dois primeiros volumes, esse livro é um romance de formação de memórias reais em BD que não só desmistifica a visão ocidental sobre a sociedade iraniana, quanto encarna uma espécie de distúrbio - a nível mais individualizado - relativo à ausência do sentimento de pertencimento dos iranianos provenientes da diáspora do pós-revolução islâmica. Ou seja, como eu disse na resenha do tomo dois, os livros problematizam também o desafio de encontrar uma identidade própria enquanto se sente uma estrangeira em seu próprio país e se é vista com desconfiança em terras estrangeiras.
O volume três de ‘Persepolis’, portanto, começa quando Marji chega na Áustria para viver a segunda metade da sua adolescência. A gente acompanha, então, a difícil adaptação dela vivendo em um país onde não fala o idioma, não partilha a mesma cultura e no qual a sua etnia a subjuga a uma circunstância de opressão ininterrupta. Nesse período, ser iraniano - ou uma pessoa não-ocidental, como um todo - representava para o Ocidente tudo que há de mais digno de terror possível, posto que a guerra se agravava e o regime do Aiatolá recrudescia.
Dentro dessa conjuntura, Marjane relata ter feito alguns amigos - os mais alternativos possíveis -, mas sem nunca verdadeiramente se sentir pertencente aos espaços que integrou. Por vezes, ela parece carregar uma espécie de culpa por ter tido êxito em se livrar do contexto de guerra no qual sua família ainda estava submetida e por ter que, enquanto isso, lidar somente com certas frivolidades juvenis daqueles seus amigos que se acreditavam muito revolucionários.
Sob esse prisma, a gente acompanha sua jornada pela puberdade e também pelos primeiros amores, onde a história assume um tom muito mais pessoal que antes. Apesar do cotidiano menos desolador que ocupa o tempo de Marjane, sua vida não é por isso mais fácil. Pelo contrário; a xenofobia, as dificuldades financeiras, a saudade de casa e a busca constante por uma identidade própria a afetam profundamente.
Por conta dessa realidade relativamente mais amena, numa primeira leitura pode-se sentir que a guerra, enquanto sujeito, é suprimida neste livro. Isso é enganoso, no entanto, porque enquanto Marji se divide entre o liceu francês, seus relacionamentos conturbados e o uso de drogas, ela se obriga a ignorar notícias sobre o Irã como um subterfúgio para se manter sã. A guerra, então, não se manifesta no que é expresso, mas justamente no que é silenciado - conforme um reflexo de trauma.
É nesse instante que se intensificam os seus comportamentos autodestrutivos e fica evidenciado o progressivo avanço de uma condição depressiva. Retomando a ideia de culpa apresentada anteriormente, o que a gente tem no tomo três pode ser lido como cenários que representam uma definição de algo que eu li recentemente em um texto falando sobre o genocídio em Gaza: o conceito de ‘culpa do sobrevivente’. O termo refere-se à avaliação que um sobrevivente faz de que não merecia ter a ‘sorte’ de conseguir se livrar de uma situação extrema - como a guerra -, enquanto seus familiares e amigos não obtiveram o mesmo êxito.
Tal situação pode ser piorada quando o sobrevivente em questão acaba, por fim, acreditando que talvez fosse melhor ter morrido em um bombardeio do que ter que enfrentar o peso do testemunho, na medida em que acredita carregar o agravante de ‘não ter se tornado ninguém’ com toda a oportunidade que teve. É o caso de Satrapi. Isso quer dizer, no fim das contas, que a guerra não mencionada é empacotada e colocada em uma mala bem pequena, mas bem pesada, que Marjane traz consigo por toda parte.
Ao fim do volume, essa angústia se torna insuportável e ela decide retornar ao seu país cerca de cinco anos após ter partido. Agora, Marji é uma jovem adulta e muito mais ocidentalizada em um Irã ainda mais autocrático, guiado cada vez mais pelas interpretações radicais dos fundamentos islâmicos e com marcas aparentes dos anos de guerra. Mas esse já é o panorama do volume 4.
Em resumo, este é mais um tomo incrível dessa história que não tem parte mais ou menos; é tudo excepcional.