"Nasci no sul da América, migrei para a Oceania. E no meio do mundo, a África, berço da minha família. Trago seus traços, sem lá, nunca ter pisado. Onde nasci, me sinto estranha. De onde eu vim, sou estrangeira".
Quando a música silencia -
Élida Reira
Edições (1)
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Este é o livro de estreia da autora Élida Reira e uma das duas primeiras publicações do selo editorial independente, Arte Sabali Edições. O livro é composto por 46 poemas, separados em grupos introduzidos por uma frase que dá uma pista do assunto que será tratado naqueles poemas que o compõem. Variados na forma e no assunto, possuem em comum uma linha norteadora, que é falar sobre a procura por uma identidade ancestral, sempre com a temática do silêncio e da música percorrendo todo o livro, duas coisas aparentemente opostos que se complementam: “Ouves o som da dança/ quando a música silencia?” (Versos do poema “Dança lenta”) Do primeiro grupo, intitulado “As cidades nos cativam o olhar e nos marcam a pele”, fazem parte poemas que vão falar sobre política, o sentir-se deslocado onde deveria ser seu lar, espaços rurais e urbanos. Daqui, destaco o poema “Silêncio batuqueiro”, que é o primeiro a falar sobre essa antítese entre silêncio e música. O poema consegue passar a sensação do incômodo em se ter apagada sua história e esse foi um dos pontos que mais me marcou nessa leitura. No grupo “A história nos molda e nós mudamos a história” o corpo é o principal assunto nos poemas “Mantra” e “33”, principalmente na tentativa de não ceder aos padrões estabelecidos socialmente e se aceitar. A temática do corpo e de sua aceitação volta a aparecer no poema “Vitrine”, do qual destaco os seguintes versos: “Eu que sou tantas,/ deixei para trás/ aqueles formatos que não me cabiam mais”. A partir do olhar pessoal da autora, o leitor é direcionado a enxergar com outros olhos assuntos que até então não havia parado para refletir profundamente, como foi o meu caso com a questão do apagamento da história das pessoas negras, não podermos saber nossa árvore genealógica porque simplesmente não há registros, por exemplo. Gostei muito do livro como um todo, cada poema me tocou de uma forma diferente, me fez refletir sobre muitas questões a respeito do sentimento de pertencimento ou a ausência dele. Dos poemas que vão ficar guardados em um cantinho no coração, dou estaque para “Linhas”, um poema de amor e esperança; “Estrada”, que fala como o amor pode afetar uma pessoa. Também gosto bastante de “Nossa casa, nossa ruptura” porque lembra as vezes em que, sem nos darmos conta, paramos para refletir sobre a vida e quando voltamos a nós, percebemos a realidade ao redor e isso nos impulsiona à superação.
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