O Segredo do Arquiteto (Origem) - Perdão por não lhe abrigar

    Adriano Mattos Corrêa

    UFMG
    2017
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9788542302028
    Português Brasileiro

    O segredo do arquiteto: perdão por não lhe abrigar propõe um diálogo transdisciplinar entre arquitetura e literatura, abordando os fazeres e os saberes contemporâneos a partir de conceitos como a incompletude, a precariedade, o falho, o mal-acabado. O ensaio anuncia práticas construtivas de caráter menor que revelam possibilidades para a edificação de outras e diferentes dobras sobre a produção de uma arquitetura contemporânea. Em um contexto territorial, cada vez mais urbanizado e dominado por uma ordem baseada em uma gestão uniformizante, higiênica, policiada e institucional das nossas existências sociais, econômicas e culturais, a experiência, aqui ensaiada, de uma má carpintaria traz como hóspede o saber do outro, compartilha e investiga outros modos para a formação e a prática de um homem-arquiteto. Uma arquitetura menor aponta para habitantes de contextos singulares e dispostos a experimentar de modo cúmplice e singular, nas frestas do campo maior do domínio arquitetural, outros modos de se viver e edificar as nossas mediações espaciais.

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    Mariana Henriques24/09/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Por uma má carpintaria

    É um ensaio sensacional que faz paralelos entre a arquitetura e a literatura. Tô encantada. O livro inicia fazendo uma crítica à inflexão do propósito da arquitetura, que passou a servir menos ao cunho social e mais ao culto imagético da sociedade espetaculizada. Essa crítica permeia o livro também nos capítulos seguintes: "Na contemporaneidade, os espaços confusos e desorientadores das nossas cidades se revelam fora da escala do sujeito, voltados para o consumo desenfreado de imagens e objetos, produtores de eventos sucessivos e de espetáculos urbanos distanciados e massificados. A voracidade dessas relações trata como uma mesma mercadoria os homens e a matéria produzida para intermediar nossa habitação comum do meio onde procuramos conviver. Tudo e todos nós somos tratados e consumidos como parte de um mesmo mercado pautado por interesses apenas financeiros." Ainda no preâmbulo, o livro cita um poema-canção de Walt Whitman que deixa bem claro seu ponto de que as pessoas fazem a materialidade da arquitetura se preencher de sentido: "Arquitetura é o que você faz dela enquanto a observa; pensou que ela estava na pedra cinza ou branca? ou nas linhas dos arcos e das cornijas?" Ainda sobre a crítica ao uso do espaço servindo a poderes maiores que não pensam na experiência urbana do sujeito, o autor defende o que ele chama de 'má carpintaria' ou (fazendo um paralelo com a 'literatura menor' de Kafka), uma 'arquitetura menor'. Seria a noção de uma arquitetura que não projeta a experiência completa e finalizada, e sim que deixa-a inacabada (ou aberta) para que os sujeitos a vivam, a transformem e a preencham de existência. "E o que se produz por aqui, nesta única e enorme cidade, é uma arquitetura ainda limitada, preocupada com discussões estéticas e restritas à construção de edifícios, sem se dar conta das contradições entre a permanência da arquitetura e o dinamismo da vida dos cidadãos ou das possíveis particularidades contemporâneas de talvez um outro cotidiano urbano. Grande parte da produção dos arquitetos se mantém à parte e sem se comprometer com as questões políticas e sociais acerca de um contexto singular de relações." Pra constatar seu ponto, o autor trabalha o conceito de Jacques Derrida de hospitalidade. É interessante, neste momento, como a arquitetura se mescla bem à filosofia. Com conceitos materiais de "casa", "entrada", "soleira", "portas", a arquitetura consegue fazer paralelos simbólicos interessantes com ideias como "abertura ao outro", "alteridade", "empatia". O livro defende uma arquitetura pautada na ideia de "outro", uma arquitetura sem pretensões de rigidez, e sim que deixe abertura para as pessoas criarem sua própria experiência no espaço. "É necessário apostar no que está por vir, naquilo que vem do outro e nos é absolutamente surpreendente. Fabricar o tempo para que esse outro se achegue e se apresente, e para se produzir este tempo é preciso ser dois, ser três, é preciso que exista o outro presente. Em hebreu fabricar tempo equivale a convidar. É preciso então convidar e também ser convidado por esse outro para que tais processos possam ser deflagrados." Ainda sobre essa ideia da 'má carpintaria', o autor defende que o projeto arquitetônico não é um desígnio e sim um princípio para a experiência (ou, como ele cita "para o compartilhamento e a construção dos saberes diversos). O projeto deve estabelecer uma relação direta entre quem o concebe (aquele que o imagina, que o arquiteta), quem o executa (aquele que o constrói, que o ergue) e aquele que o vive (aquele que o habita, que o utiliza). "Não é pelo dado técnico que a arquitetura menor acontece, mas é pela possibilidade de ter no dado do mundo uma fonte inesgotável de formas de fazer o mesmo sem nunca ser o mesmo." Por fim, ele faz uma defesa de uma arquitetura fundada no outro, na alteridade, no "visitante que "nos proporciona verdadeiramente a experiência do viver, que nos afeta e nos modifica". Uma arquitetura que não tenha um projeto fixo e funcionalista do modo como se "deve viver", e sim que se referencie na experiência singular dos sujeitos, que forme o que o autor chama de 'comunidade da diferença', que promova espaços potencializadores de experiência, territórios de resistência e tantos outros modos possíveis de habitar o mundo. "Seria a propósito de uma arquitetura em que a materialidade da obra estaria sob constante tensão no processo de sua diluição no cotidiano da vida, ao mesmo tempo que ações cotidianas pressionam para sua abertura à experiência do construir e do viver. É só em um espaço informe que se garante, por suas características de formação singular e de informação de singularidades, essa condição de experiência."

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