Mo Yan As Rãs (2015)
Essa é a segunda vez que leio uma obra da literatura chinesa. Até então, conhecia apenas o divertido Macaco Peregrino, ou a Saga ao Ocidente (2002) de Wu Chengen. Acho sempre interessante observar como a visão de mundo se manifesta em outras culturas pelo globo. Dessa vez, ainda seguindo o plano de conhecer o texto de vencedores de Nobel, cheguei até a obra de Mo Yan (não fale em chinês), pseudônimo do autor Guan Moye, premiado em 2012. Em uma fusão entre história e ficção, As Rãs tem um enredo cujo recorte temporal ilustra a invasão japonesa em 1937, atravessa a Guerra Civil (1947-49), a Proclamação da República (1949), o período da Grande Fome (1958-61), a Revolução Cultural (1966-76), chegando até o grande crescimento econômico chinês no século XXI. O livro é contado pela perspectiva de Corre-corre, aspirante a dramaturgo que descreve suas memórias em cartas enviadas a um ex-professor japonês. O protagonista, que anseia dramatizar a história de sua tia, Wan Coração, retrata a própria trajetória pessoal e a de personagens de uma pequena aldeia rural ao longo de inúmeras mudanças políticas e sociais atravessadas pelo povo chinês. Em narrativa de abismo literário (mise en abyme), Wan Coração, a personagem do livro e personagem da peça dentro do livro, apresenta-se como elo essencial para toda a obra: parteira que se torna uma importante obstetra durante o período da severa política chinesa de controle de natalidade, a personagem experiencia a dualidade de ser responsável por milhares de novas vidas, ao mesmo tempo que é responsável por executar um sem número de abortos e vasectomias compulsórias. Em um texto leve e por vezes bem-humorado, apesar do grande peso das questões abordadas, As Rãs é um livro excelente. Particularmente, não curti muito a decisão estilística de incorporar a peça teatral ao romance, ainda assim, é uma obra que vale muito a leitura!
