"Guia bibliográfico da nova direita" se insere no contexto de mais uma das várias publicações que têm saído nos últimos anos com o intuito de divulgar uma corrente política relativamente recente no Brasil. O autor, membro do Instituto Liberal, é, talvez, um bom início para se conhecer um movimento do qual ele se considera como parte.
O livro reúne uma coletânea de resenhas sobre diversos livros de escritores da estirpe conservadora e liberal, além das obras de outras figuras que fogem desse universo, como Marx, Hitler, Mussolini, Geisel, FHC e outros. Berlanza divide a obra em seis partes, contando com um apêndice que trata de discutir o libertarianismo sob o viés do manifesto libertário de Rothbard. A partir da análise de obras reconhecidas (e outras nem tanto), ele traça um caminho por vezes superficial até chegar ao seu objetivo. Por outro lado, isso pode ser considerado satisfatório para quem busca apenas comentários gerais sobre livros que carregam uma densidade teórica muito elevada.
Um ponto que merece destaque, a meu ver, e que retrata uma certa superficialidade e transigência do autor, que se classifica também como aquilo que se convencionou no Brasil chamar de "liberal conservative", é a sua análise da obra "A ação humana", de Ludwig von Mises. Este capítulo, que é um dos maiores do livro, apresenta as bases do pensamento daquele que veio a ser um dos grandes nomes da Escola Austríaca, trabalhando conceitos essenciais na obra e esclarecendo pontos controversos. Porém, ao fim, numa parte que se denomina "alguns incômodos e algumas certezas", a crítica se resume a tratar de questões que não dizem respeito à nada que seja de interesse do leitor, com exceção da menção ao utilitarismo levado aos excessos por Mises:
"O racionalismo humilde e técnico de Mises, porém, funde-se a uma "profissão de fé" utilitarista que, pessoalmente, nos incomoda. De par com algumas discordâncias menores -- não subscrevo a teoria de Mises sobre Deus, o que aqui não vem ao caso; também não aprovo sua sustentação da necessidade circunstancial de serviço militar obrigatório, sua visão libertária um tanto dogmática no otimismo abstrato em relação à imigração e no laissez-faire necessariamente "absoluto" --, essa é a maior e mais profunda discordância em relação à visão de mundo de Mises."
Não questiono a capacidade ou a honestidade do autor, tampouco pretendo apontar se isso é ou não uma postura adequada, afinal, é possível que pela própria natureza do gênero literário escolhido -- resenha -- esse risco já fosse previsível. A escolha das obras apresentadas também se apresentaria como outro risco, algo que foi rapidamente mencionado na introdução: "O leitor que conheça melhor o tema notará uma série inumerável de ausências, obras apenas mencionadas, sem um capítulo próprio. Esta, contudo, é uma apresentação sintética, em que cada obra escolhida tem uma razão de ser para aí estar".
A parte mais elogiosa do livro, para mim, é o início da segunda parte, intitulado "os atenienses da América e o pai da nação". Ali, Berlanza comenta rapidamente o papel de José Bonifácio como "founding father" do Brasil e a sua relevante contribuição a partir da obra "Projetos para o Brasil", organizado por Miriam Dolhnikoff. As resenhas e a revisitação a intelectuais como Ubiratan Borges de Macedo, José Guilherme Merquior e João Camilo de Oliveira Torres também são louváveis.
O livro é uma boa contribuição para a controvérsia política dentro do Brasil, tanto por estar aberto ao debate quanto por se mostrar como o próprio contraditório da esquerda que detinha o monopólio do protagonismo em todas as áreas. Não nego que eu fiquei um tanto incomodado com algumas passagens do livro, mas isso certamente é um problema meu, já que tenho uma posição conservadora não muito afeita ao liberalismo representado por Mises, maciçamente difundido pela nova direita brasileira.