À l'ombre des jeunes filles en fleurs (À la recherche du temps perdu #2) -

    Marcel Proust

    Gallimard
    1988
    576 páginas
    19h 12m
    ISBN-13: 9782070380510

    «Tout d'un coup, dans le petit chemin creux, je m'arrêtai touché au cœur par un doux souvenir d'enfance : je venais de reconnaître, aux feuilles découpées et brillantes qui s'avançaient sur le seuil, un buisson d'aubépines défleuries, hélas, depuis la fin du printemps. Autour de moi flottait une atmosphère d'anciens mois de Marie, d'après-midi du dimanche, de croyances, d'erreurs oubliées. J'aurais voulu la saisir. Je m'arrêtai une seconde et Andrée, avec une divination charmante, me laissa causer un instant avec les feuilles de l'arbuste. Je leur demandai des nouvelles des fleurs, ces fleurs de l'aubépine pareilles à de gaies jeunes filles étourdies, coquettes et pieuses. "Ces demoiselles sont parties depuis déjà longtemps", me disaient les feuilles.»

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    A. Brito11/08/2021Resenhou um livro
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    Proust - À sombra das jovens em flor

    O narrador deste livro é uma enciclopédia de ideias, juízos, intuições. Todo o livro é escrito, não só sobre a égide da memória, como o próprio autor afirma, mas também sob a égide da intuição criativa. Em cada linha há uma análise, um aparte, um dito de uma profundidade e de uma verdade quase inimagináveis., analista da vida em sociedade, parece ver cada pormenor ao microscópio, e com um balança em cada mão, rindo do modo como cada um valoriza a sua pessoa, a sua palavra, o seu estatuto, observa a diferença entre o estatuto real e o estatuto imaginado de cada um, a forma como cada um se integra na sua classe social, conhece o que sente um jovem, uma jovem, analisa a forma como cada um se comporta na vida em sociedade, o modo como o coração muda, insensivelmente, e logo a seguir muda de agulhas e discorre sobre literatura. É difícil perceber se são mais admiráveis os pensamentos em si, ou a forma como estes engastam no texto com uma naturalidade de tapeçaria, numa complexa lógica de rede em que nada é deixado ao acaso, como se uma locomotiva passasse a pente fino toda a alma humana; uma estrutura que é tudo menos natural, tão difícil de criar como os próprios pensamentos que dela fazem parte. É notável a fluidez das frases que se alongam como videiras e trepam aos ombros de outras que por sua vez se alongam e dão continuidade a novos pensamentos. Uma escrita tão elegante que parece natural, mas não é, ninguém escreve daquela forma sem um trabalho meticuloso de artífice por trás, mas a verdade é que em nada se nota esse trabalho, as frases caem no papel como as tolhas de certas mesas em certas casas. As personagens e as situações narradas são extremamente verosímeis e simples, quase naturais e tudo se vai encadeando para nos mostrar mil realidades diferentes da realidade, como quem forja as cores estilhaçadas de um caleidoscópio uma a uma e por fim une o caleidoscópio a partir de uma gigantesca memória criativa, desproporcionada, que abrange em si todas as pluralidades.

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