As paixões de caudilhos e heróis compõem o clima envolvente deste romance fascinante que reconstitui com maestria o mais importante episódio da história sil-rio-grandense.
As paixões de caudilhos e heróis compõem o clima envolvente deste romance fascinante que reconstitui com maestria o mais importante episódio da história sil-rio-grandense.
Alcy Cheuiche conduz o leitor a uma viagem ao tempo, recontando episódios marcantes do decênio heroico com diálogos fictícios entre personagens reais. O ponto de partido é a Ponte da Azenha, umbigo da Guerra dos Farrapos, como o autor define, local da primeira batalha entre farroupilhas e caramurus. O narrador observa a ponte dos dias atuais, a servir de ligação para o trânsito de automóveis e veículos pesados, e, num processo de descongelamento do tempo, é levado para a noite de 19 de setembro de 1835. Afinal o próprio autor justifica , seria uma leviandade julgar os homens daquela época com os olhos de hoje, sendo necessário, portanto, mergulhar de cabeça no tempo. A partir de então, Cheuiche destrincha os principais episódios do conflito, proporcionando ao leitor uma visão íntima dos principais personagens da época. Começa com a invasão de Porto Alegre pelos revolucionários e passa pela proclamação da República Rio-Grandense, seguindo pelo relato da fuga de Bento Gonçalves da Fortaleza do Mar, na Bahia, a marcha de Garibaldi em Santa Catarina, o duelo entre Bento Gonçalves e Onofre Pires que feriu mortalmente o segundo e, por fim, a assinatura do tratado de Ponche Verde, que pôs fim ao conflito. Para quem conhece pouco sobre o episódio histórico em questão, trata-se de uma oportunidade de compreender as causas que levaram à revolta contra o império o que, obviamente, irá depender da interpretação do autor. No encontro em que tenta atrair o amigo e compadre Silva Tavares para a revolução, Bento Gonçalves nega que os farroupilhas quisessem a separação do Brasil. O desejo do movimento, alega, era uma maior autonomia administrativa. Ele cita como exemplo o imposto sobre o charque. Em tudo pagamos o duplo do dízimo, como se nos quisessem castigar, explica o líder farrapo. A localização geográfica do Rio Grande do Sul também é ressaltada, enquanto Bento alega que nenhuma outra província pagou tão caro para manter as fronteiras do Império. Desde a construção do forte do Rio Grande, há quase um século, os rio-grandenses mal tiveram tempo de cuidar do gado, de lavrar a terra. Nosso povo está merecedor de paz e de justiça, afirma o líder farroupilha. A origem de termos que hoje fazem parte do nosso vocabulário também é revisitada por Cheiuche. Oitenta anos após a invasão das Missões, os guaranis já haviam perdido toda e qualquer identidade cultural. As moças, devido aos traços orientais, eram chamadas de chinas e usadas desde a puberdade como prostitutas sem salário. Os filhos delas eram chamados pelos brancos de gaúchos, quase um sinônimo para bastardo, considerados então a escória da província. Estes homens, que cresceram tropeando gado chucro e guerreando, eram o povo verdadeiro do Rio Grande, segundo o narrador. A obra de Cheuiche exalta os ideais farroupilhas, mas não de uma forma revanchista, fazendo jus a uma frase que ele destaca do Barão de Caxias, após a assinatura do tratado de paz: Os que morreram nesta guerra eram todos irmãos.
