Fury MAX -

    Garth Ennis, Darick Robertson, Jimmy Palmiotti

    Marvel
    2001
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    A história trata do recém-aposentado chefão da organização de espionagem S.H.I.E.L.D., o coronel Nick Fury, e sua tentativa de adaptação no mundo dos civis. Acontece que as coisas mudaram, já não há mais Guerra Fria e o máximo de ação que o velho soldado consegue é cuidar de um sobrinho idiota. Todavia, um velho amigo dos tempos de crise tem uma proposta pra lá de indecente. A minissérie que teve a arte de Darick Robertson ganhou tanto elogios quanto causou controvérsia por causa do roteiro agressivo de Garth Ennis.

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    Jonathan Silva01/07/2017Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    CORONEL GUERRÓLATRA

    Ele conseguiu de novo. Garth Ennis (da memorável "Preacher") se diverte escrevendo para o Marvel Max feito pinto no lixo. O irlandês tarantinesco entendeu direitinho quais eram as brechas que o então nascente selo adulto da Marvel abria e aproveitou de modo quase pleno, como eu já tinha verificado também em "Thor: Vikings", um personagem que eu sequer achei que teria proveito na proposta do Max, por ter conceito meio infantil e até religioso, mas Ennis provou que eu estava errado. Agora, de novo, ele consegue a proeza de partir de um personagem relativamente secundário e fazer uma HQ solo dele pra lá de divertida. Nick Fury oferece um ótimo pano de fundo para histórias regadas a violência, tripas expostas e muito sangue. Afinal, é um milico, aqui aposentado (visivelmente à contragosto), mas que dissimula muito mal a própria, digamos, 'guerrolatria', a sede de entrar em qualquer guerra, por qualquer motivo, já que é a única linguagem que o veterano da S.H.I.E.L.D. de fato compreende. Ennis deixa isso apenas relativamente insinuado (talvez pra não macular demais a imagem do personagem com os fãs), inclusive no desfecho da sexta e última edição do arco. É mais evidente a 'guerrolatria' do nêmesis Rudi Gagarin, um russo truculento guardado de perto por um segurança gigante com deformação facial, que atende pelo singelo apelido de CRUZ-CREDO. Mas a verdade é que, pra bom entendedor, Fury é uma cópia-carbono de seu inimigo no campo de batalha da fantasiosa "Ilha Napoleão" no Oceano Pacífico, que passa por uma turbulência de interesse geopolítico da China e dos EUA. Ennis coloca na boca do milico caolho não só as já esperadas falas politicamente incorretas com muita ironia divertida, mas arranja espaço para que Fury e outros personagens surpreendam com alfinetadas contra a política intervencionista dos EUA no chamado "Terceiro Mundo". Desse modo, temos aqui um agente da S.H.I.E.L.D. que... odeia a CIA! Claro que o roteiro só avança nisso até certo ponto, mas não deixa de ser curioso. Há muito humor negro e tiradas envolvendo sexo. Destaque para as duas filhas ninfomaníacas do governante da "Ilha de Napoleão" e para o insuportável e onipresente filho adotivo do próprio Fury, que nem ele suporta. Ennis não deixa a peteca desse humor ácido cair do início ao fim de suas seis edições, encerrando de modo bem satisfatório. O desenho ficou por conta de Darick Robertson e arte-finalizado por Jimmy Palmiotti, num estilo que lembra seu parceiro Steve Dillon: cores quentes e realce em figuras grotescamente divertidas, como o Cruz-Credo (praticamente uma versão anabolizada do Cara-de-** de "Preacher") . Não é nada de genial, mas casa perfeitamente com o estilo do roteiro. Lembrando que o Nick Fury aqui é um velho branco, e não um careca negro como Samuel L. Jackson, o que não chega a ser uma surpresa pra quem já tinha visto isso em outras HQs (como as que servem de prólogo para "Planeta Hulk") e, convenhamos, cai bem para o tipo de feitio físico que se espera de um coronel facínora mal-dissimulado daquele país, chefiado por brancos desde priscas eras. Poderia encerrar essa resenha dizendo que "Fury" foi uma boa surpresa. Mas será que é mesmo? Afinal, Garth Ennis caminha para ser um dos meus roteiristas favoritos e, até aqui, não errou uma no que li dele, de modo que já começo a criar boa expectativa em qualquer coisa que seja assinada por ele. Quem tiver a oportunidade de escrever para o selo Max devia aprender com esse senhor como é que se faz uma HQ que não tem frescura e não perde uma só piada corrosiva. Uma curiosidade: a HQ assustou Stan Lee e George Clooney (então cotado para interpretar o personagem no cinema) pela violência gráfica e conceitual. Tem gente que ainda hoje não entende que a nona arte não existe só pra fazer escapismo infantilizado...

    1 curtida

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