O ótimo Garth Ennis deu uma relativa derrapada nessa série "O Pacificador", uma 'prequel' para a ótima série "Fury", a qual ele escreveu para o então nascente selo Marvel Max em 2001. Assim sendo, temos o então sargento Nick Fury ainda com os dois olhos bons (ao final será explicado como ele perdeu a visão do lado esquerdo) e lutando pelos aliados na Segunda Guerra Mundial, no norte da África.
Essa série aqui, em seis edições, publicada em 2006, já começa com uma grande limitação: é publicada por outro selo (Marvel Knights), ou seja, já podem esperar o irlandês menos violento e sobretudo sem as piadas relacionadas à sexualidade que marcaram a HQ de 2001. O que é uma pena e fez uma tremenda diferença, já que o personagem cai muito bem para uma proposta ácida, direta e madura sobre enredos de guerra. Por exemplo, há um momento, acho que na terceira edição, na qual vemos Nick com uma mulher na cama. Daí ela se levanta e... está usando sutiã, no meio da trepada! Ah, se a publicação fosse no Max...
A violência até existe, embora não com a mesma contundência da série de 2001, mas acaba não causando muito impacto, já que normalmente é desferida contra personagens que só fazem figuração como soldados ordinários de um dos lados do conflito. Pra tentar compensar essas limitações de apelo gráfico, Ennis elabora um roteiro intrincado com o plano de um batalhão inglês, que encontra Fury no deserto da Tunísia, com a possibilidade de matar Hitler e encerrar a guerra antecipadamente.
Ficou bem claro que Ennis manja pra caramba de muitos detalhes cronológicos, técnicos e estratégicos que permearam a Segunda Guerra, inclusive em batalhas menos conhecidas, como essas da África. Fiquei até impressionado com a profundidade do conhecimento histórico escondido por trás daquela linguagem desbocada típica do autor - e, pesquisando, descobri que ele já até escreveu HQs mais 'sérias' sobre o assunto ("War Stories" e "Battlefields", cuja leitra agora passa a me despertar curiosidade).
Em "Fury: Pacificador", todavia, o que surgiu foi um casamento feito às pressas entre a necessidade de contar o passado de Fury e, ao mesmo tempo, a vontade de detalhar o contexto da Segunda Guerra. O primeiro intento foi claramente atropelado feito um rolo compressor pelo segundo, de modo que entramos e saímos das seis edições não descobrimento nada de relevante sobre o passado do milico da S.H.I.E.L.D., seus traços de personalidade e caráter.
Ao mesmo tempo, Ennis é obrigado a se voltar (ao que parece, até a contragosto) para o personagem, quando queria mesmo era falar da guerra e não dele. O resultado acaba sendo uma HQ morna, cheia de detalhes técnicos deslocados, com pouca diversão ou suspense, exceto na última e melhor das seis edições. Toda vez que ficava preguiçoso ou desinteressado em falar sobre Fury, o roteirista se voltava para sua zona de conforto (e de guerra) de detalhamento histórico e técnico dos armamentos a tanques alemães na boca de algum dos personagens inexpressivos do batalhão.
O traço é novamente realizado por Darick Robertson e arte-finalizado por Jimmy Palmiotti. Fizeram um trabalho muito bom, até mais amadurecido que na HQ de 2001, embora o teor mais 'sóbrio' dessa história tenha impedido Robertson de desenhar umas maluquices divertidas e criativas como o Cruz-Credo, que traziam um humor mais sacana que fez falta em "Pacificador".
De modo geral, uma HQ até razoavelmente proveitosa e bem ilustrada - mas fortemente prejudicada por não se decidir entre ser um quadrinho histórico de guerra ou uma aventura insana ajudando o leitor a conhecer melhor o caolho da Marvel.