Entrar
    Book cover
    Compartilhar
    Editar
    • Sinopse
    • Edições1
    • Vídeos0
    • Grupos0
    • Resenhas4
    • Leitores87
    • Similares0
    Skoob logo

    Saiba mais

    Quem somosTermos de usoFale conoscoCentral de ajudaPrivacidade

    Fique por dentro

    Livros em destaque

    Explore

    LivrosAutoresEditorasLeitoresCortesias

    Siga nas redes sociais

    Baixe o app

    Google PlayApp Store

    O peso do coração de um homem -

    Micheliny Verunschk

    Patuá
    2017
    122 páginas
    4h 4m
    ISBN-13: 9788582974001
    Português Brasileiro
    4.3
    22 avaliações
    Leram32Lendo3Querem52Relendo0Abandonos0Resenhas4
    Favoritos3Desejados52Avaliaram22

    Logo no início deste livro, o narrador, um menino então sem nome, constata: “morar perto do fim do mundo é morar longe, perto de nada, numa terra sem país”. O impactante parágrafo de abertura determina os matizes que vão se espalhar da primeira à última palavra do romance. O pôr do sol e a poeira das estradas que a civilização tarda a percorrer têm cor de sangue num Brasil de feridas abertas, de instituições de fachada, verdadeira terra sem país. Na trama, dois meninos são tirados à força da família por conta de uma antiga e misteriosa rivalidade, levada a cabo, como sói acontecer, de forma brutal e às margens da lei. Na casa de seus captores, são bem tratados e ganham pela primeira vez nomes próprios: Cristóvão, o narrador, Gonçalo, o caçula. É a memória dessas violências que vai converter o mais velho num assassino juvenil capturado pela polícia, apresentado no romance anterior da autora, Aqui, no coração do inferno. Um mundo muito pobre de palavras e gestos, como o narrador o descreve — fazendo lembrar os grunhidos animais de Fabiano e Sinhá Vitória, de Vidas secas —, permite que as pessoas prescindam de nomes. O menino percebe, sem o saber, na linguagem a lâmina que retalha o corpo do mundo e condena ao isolamento elementos até então indistinguíveis: “como se as coisas indefinidas não pudessem ter existência de verdade”. Nesse mundo, nomear talvez signifique justamente condenar. “Mãe era mãe. Corália era nome de morte”. Assim como fizeram com sua mãe, para ser capaz de se vingar Cristóvão precisa antes dar nome a assassina dos pais: Abutra. É nesse ponto em que o peso do ato de nomear é flagrado que a literatura de Micheliny se dá a ver em toda a sua grandeza. A percepção do poder criador (e destruidor) da palavra, constitutiva de toda boa literatura, está presente na premiada trajetória da autora como poeta e prosadora. Essa consciência possibilita que, numa trama de vingança, repleta do suspense e da ação que fazem o leitor ansiar pela próxima página, descortinem-se também, sem sociologismos, as mazelas de um país que se urbanizou, mas nunca deixou de ser regido pelos costumes dos grotões mais violentos. “O peso do coração de um homem não é diferente do peso do coração de qualquer animal”, conclui o menino, já hábil no catecismo da morte. Quem determina esse peso é a linguagem. E, no trabalho com a linguagem, é válida outra de suas descobertas no trato com as vítimas: “passar a faca tem outro tipo de exatidão”. É com essa exatidão que a autora dispõe as palavras nesse belo e poderoso romance.

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (4)Ver mais
    Alvaro Jose picture
    Alvaro Jose07/08/2025Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    O peso do coração de um homem

    Micheliny Verunschk, em O peso do coração de um homem, constrói uma narrativa intensa, lírica e profundamente visceral, que mergulha nas violências da memória, do trauma e da formação subjetiva através da experiência da perda e do cativeiro. A obra, publicada pela Editora Patuá em 2017, é narrada em primeira pessoa por uma criança sem nome – posteriormente nomeada Cristóvão – que rememora o dia em que sua vida foi brutalmente interrompida com a chegada de forasteiros à sua casa, no ermo chamado "Gritos". Logo nas primeiras páginas, o leitor é confrontado com uma cena de violência devastadora. A narrativa é marcada por um lirismo cru, quase poético, que convive com a dureza dos fatos. A linguagem da autora funde-se ao pensamento infantil do narrador, resultando em um estilo que mistura ingenuidade, brutalidade e epifania. A criança observa o mundo com olhos atentos, tentando decifrar a lógica dos adultos, do sofrimento e da violência – e aprende rapidamente. O peso do coração a que o título se refere pode ser lido como o fardo da consciência precoce, da perda, da vingança e da transição forçada da infância para o mundo adulto. Depois de serem levados, os irmãos são acolhidos por Dona Branca – uma mulher misteriosa, poderosa e aparentemente protetora, que lhes dá novos nomes (Cristóvão e Gonçalo) e os insere em uma nova vida, marcada por disciplina, silêncios, segredos e vigilância. Ao longo da narrativa, o protagonista se transforma: da dor nasce o desejo de vingança; da opressão, a astúcia; da palavra, a liberdade. A alfabetização surge como metáfora de emancipação, mas também como risco: ao nomear-se, o sujeito se expõe ao mundo e à morte. Um dos elementos mais marcantes do romance é a forma como Micheliny explora a ideia de identidade – ou a ausência dela. Até receberem seus nomes, os meninos são apenas "menino" e "menino". A falta de nome é também falta de história, de lugar, de pertença. Nomear, nesse sentido, é dar corpo, mas também é condenar ao destino. O menino-narrador entende isso cedo: o nome é uma marca, e toda marca pode ser ferida. A autora também trabalha com o simbolismo da linguagem popular e da tradição oral nordestina: rezas, ditados, imagens rústicas e simbólicas (como a da cabeça decapitada da mãe, os banhos de ervas, os "piolhos das letras") criam um universo que é ao mesmo tempo real e mítico. O romance tem muito de fabular, de parábola, embora esteja visceralmente ligado a questões concretas como o poder, a violência e a dominação. Com passagens intensas, poéticas e brutais, O peso do coração de um homem é um livro sobre sobrevivência e construção de subjetividade sob o signo do trauma. Micheliny Verunschk consegue dar forma à dor sem estetizá-la de modo superficial, tratando a violência não como espetáculo, mas como parte do mundo – e da formação do eu.

    15 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.3 / 22
    • 5 estrelas55%
    • 4 estrelas32%
    • 3 estrelas9%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas5%
    Micheliny Verunschk  profile picture

    Micheliny Verunschk

    Possui graduação em História (AESA-PE), Mestrado em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP) e Doutorado em Comunicação e Semiótica (PUC -SP). É pesquisadora dos grupos de pesquisa "Comunicação e cultura: barroco e mestiçagem", e do Centro de Estudos da oralidade, ambos do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC SP. Atuou na área de Comunicação do Instituto Itaú Cultural e nas áreas de programação cultural da Casa das Rosas e Biblioteca São Paulo. É escritora com onze livros de prosa e poesia publicados e tem experiência em jornalismo cultural, produção cultural e na coordenação editorial de materiais de apoio ao professor e catálogos de artes. Ganhadora dos Prêmio Jabuti e Oceanos de Literatura na Categoria Romance do ano de 2022. É palestrante convidada para eventos referentes à cultura e literatura brasileira contemporânea. Atua principalmente nas áreas de comunicação, história, literatura brasileira e portuguesa, poesia, prosa e cultura.

    23 Livros
    65 Seguidores
    Pernambuco, Brasil

    Micheliny Verunschk