Uma das coisas mais difíceis que se pode existir é tentar resenhar Lev Tolstoi. Mas o desafio existe para ser enfrentado. Em primeiro lugar, trata-se de um excelente livro. Depois falarei sobre a obra e possíveis fontes. Agora, no entanto, gostaria de me concentrar na edição que tenho em mãos.
Essa é uma edição traduzida pelo casal Nina e Felipe Guerra para a Editorial Presença. Para quem não os conhece, a Nina é uma tradutora nascida na Rússia, de modo que tem considerável conhecimento e gabarito para traduzir o livro. Além disso, o casal tem sido premiado pelo seu primoroso trabalho de tradução. Pode parecer estranho um livro lusitano, com todas as marcas do português lusitano, ter chegado às mãos de um brasileiro do Nordeste. Especialmente quando se tem uma excelente edição traduzida pelo Rubens Figueiredo para a editora Cosac Naify. Problema: essa tradução é difícil de encontrar, devido a uma tiragem relativamente baixa do livro e ao fato de a editora ter encerrado as suas atividades em 2015. Assim eu busquei essa alternativa estrangeira.
Nesse processo, é evidente que algumas pequenas dificuldades surgem no que tange ao vocabulário, mas o contexto e um bom dicionário ajudam bastante. Apesar dos pesares, trata-se da nossa língua – embora com um dialeto diferenciado e até certo ponto distante do falado neste lado do Atlântico. Certamente não me arrependo de ter adquirido esse livro na Livraria Cultura virtual. O preço estava mais o que excelente (ah, isso é um detalhe em relação à edição de que se fala agora).
Passando-se ao texto do livro, à matéria da obra em si, este foi o último romance do Tolstoi (foram publicados alguns outros livros, como Khadji-Murát, mas este se encaixa como novela, que é uma narrativa intermediária entre o romance e o conto). Esse é um livro excelente.
Neste livro Tolstoi mergulha a fundo na situação dos presidiários do sistema penitenciário russo. Apresenta conclusões impressionantes a respeito da sua sociedade (e, em consequência, da sociedade ocidental como um todo). Para ele, o Direito e a Justiça servem para beneficiar quem está no poder, a sua própria classe social (aristocrata). Para isso, injustiças sem fim são cometidas. Além disso, ele trata também da questão do campesinato russo. Quanto a de quem deve ser a terra.
As suas respostas a esses problemas o aproximam de uma vertente anarquista, conhecida entre nós como anarcopacifismo (a despeito de nunca se ter reconhecido anarquista). Essa corrente de certa forma influenciou o líder hindu Mahatma Gandhi e há uma correspondência significativa entre os dois, interrompida apenas pela morte do célebre escritor.
Essa monumental obra teve diversas partes censuradas, pois o escritor atacou abertamente o regime social russo vigente. De certa forma, Lev Tolstoi não perdoa ninguém neste livro.
Este que tenta agora falar sobre essa obra monumental e injustiçada percebe nos personagens principais Nekhliúdov e Máslova tipos sociais. É evidente que estes são importantíssimos para a obra, é especialmente nos pensamentos e palavras deste e também de alguns presos políticos que Tolstoi expõe os seus pensamentos. Os objetivos do escritor eram claramente reformistas e moralizantes.
Com respeito a fontes, creio que se podem mencionar aqui algumas:
1 – a sua própria vida;
2 – um amigo advogado, Anatóli Kóni, que lhe conta uma história sobre sedução e uma tentativa de redenção;
3 – a perseguição por que os presos políticos passavam
4 – as condições das prisões russas, desde as capitais, até a Sibéria.
Há algumas mais a se comentar, mas fazê-lo ensejariam na existência de spoilers sobre a obra, o que não é, definitivamente o objetivo desse humilde texto. O que tenho a dizer é: leiam o livro. Ele pode mudar a sua vida. E não é aquela literatura chata de que se costuma dizer acerca dos clássicos da literatura. É uma obra compreensível e interessante. Enfim, leia!