A descida ao inferno
Minha leitura de O Pequeno Polegar, dos Irmãos Grimm, foi despertada por A Mercadoria Mais Preciosa, de Jean-Claude Grumberg, e me chamou a atenção, sobretudo, pela centralidade da palavra e da inteligência como forças de sobrevivência. A fragilidade física do pequeno herói contrasta com sua astúcia e com o poder que ele exerce por meio da linguagem, que se impõe onde a força falta. Ao mesmo tempo, a jornada de Polegar se realiza por meio de um verdadeiro rito de passagem, simbolizado pela travessia de três espaços fundamentais — a toca do rato, a barriga da vaca e a barriga do lobo —, lugares de engolimento e transformação que remetem à imagem arquetípica de Jonas no ventre da baleia. Trata-se de uma experiência de suspensão, morte simbólica e renascimento, que marca o amadurecimento do herói e completa sua jornada, pela conquista de consciência, palavra e sentido.

