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    Laços -

    Domenico Starnone

    Todavia
    2017
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9788593828089
    Português Brasileiro
    4.2
    2982 avaliações
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    Uma obra vulcânica e marcante sobre família, casamento e traição. Vanda e Aldo estão casados há mais de 50 anos, e seu casamento esteve sujeito a tensões e desgastes da rotina. Ao voltarem de uma semana de férias, eles encontram o apartamento revirado. Reorganizando seus papeis, Aldo se vê forçado a encarar lembranças dos anos em que abandonara Vanda e os filhos para viver com outra mulher. As fissuras causadas por esse trauma permanecem latentes. Com atmosfera napolitana, Laços é uma narrativa honesta sobre relacionamentos, família e amor. Não há respostas fáceis - a esposa traída, a filha abandonada, o marido infiel, herois ou vilões - mas sim pessoas comuns, com seus complexos desejos e anseios.

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    kam ! picture
    kam !04/06/2025Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    "uma vez que você decide se comportar de modo a ferir profundamente, ou, de qualquer maneira, danificar para sempre outros seres humanos, você não deve nunca voltar atrás. deve assumir a responsabilidade pelo crime até as últimas consequências."

    Laços, de domenico starnone, é um romance curto apenas em extensão. seu conteúdo, no entanto, tem o peso de décadas condensadas em três partes que se entrelaçam e expõem, com crueza, a anatomia de um vínculo familiar quebrado e sustentado pelo que nunca se disse. é uma narrativa que começa com a dor da ruptura, mergulha na banalidade da convivência e termina na constatação amarga de que os filhos sempre acabam herdando, mesmo sem querer, os escombros do passado. o livro se constrói a partir das vozes de uma mulher traída, de um marido que retorna após o abandono, e dos filhos que carregam, em silêncio, os destroços do que presenciaram na infância. o livro se debruça sobre a intimidade familiar com uma delicadeza crua, revelando o que há de mais humano nas falhas, nos ressentimentos e nas tentativas frustradas de recomeço. não é uma história de grandes reviravoltas, mas de pequenas rachaduras que se acumulam, de palavras não ditas que se transformam em muros, de afetos que sobrevivem mais por hábito do que por real presença. starnone não busca heróis ou vilões — ele mostra pessoas reais, com medo, raiva, culpa, vergonha e desejo. laços fala do que permanece mesmo depois da ruptura, daquilo que nunca foi consertado e, ainda assim, se manteve de pé. é sobre como os filhos absorvem tudo — o silêncio, a mágoa, a ausência, mesmo quando não há gritos. é também sobre os restos que se escondem debaixo do tapete da rotina, sobre como seguimos em frente sem nunca ter voltado para buscar o que ficou para trás. me identifiquei especialmente com essa parte, com o modo como o livro dá espaço à perspectiva dos filhos. não por um sentimento de superioridade ou por querer me distanciar das falhas dos meus pais, mas porque enxerguei ali uma dor familiar, conhecida. muitas vezes, os filhos são jogados do cais da família — ficam à deriva, tentando entender o que aconteceu ao seu redor, sem nunca terem tido escolha ou voz. são obrigados a assistir, calados, os desmoronamentos dos adultos, e ainda assim esperam deles segurança. ver isso retratado no livro me atravessou de um jeito particular, porque sei o que é tentar seguir em frente carregando pedaços que nem eram meus para segurar. laços é, nesse sentido, um livro que não só conta uma história, mas expõe feridas — e, com uma sinceridade dolorosa, permite que a gente as olhe de frente. me vi refletindo sobre quantas vezes o silêncio dentro de casa se tornou mais ensurdecedor do que qualquer discussão, e sobre como o afeto pode ser confundido com presença, mesmo quando a alma já foi embora há muito tempo. ler esse livro foi, para mim, um tipo de reconhecimento íntimo e incômodo — como abrir uma gaveta antiga e encontrar ali cartas que eu nunca escrevi, mas que, de algum modo, também eram minhas. na primeira parte, composta pelas cartas de vanda ao marido que a abandonou, o livro se inicia com um tom de urgência e desespero. “considera que, já tendo transcorrido quatro anos, é possível tratar o problema com serenidade. mas o que ainda há para tratar? a natureza dessa sua necessidade não foi definida com precisão quando você caiu fora roubando nossas vidas, quando os abandonou porque não suportava a responsabilidade.” — a força desta passagem já anuncia a complexidade do que está por vir: o ressentimento de quem foi deixada para trás, a consciência clara de que o tempo não suaviza o que não foi resolvido. vanda escreve num ritmo que não é apenas confessional, mas acusatório — ela não escreve para pedir que ele volte, mas para que ele saiba exatamente o que destruiu. é o grito de alguém que, de uma hora para outra, viu-se sozinha com dois filhos pequenos, abandonada por aquele que deveria ser seu parceiro. ao longo das páginas, vemos o que significa esse abandono para uma mulher que havia dedicado sua vida à família, acreditando em uma estabilidade que, no fundo, era sustentada mais pela tradição do que por afeto genuíno. suas cartas são carregadas de ressentimento, mas também de clareza. há nelas uma inteligência cruel, lúcida, capaz de desmontar a máscara do marido com frases diretas e duras. é possível sentir sua humilhação, seu cansaço, mas também a sua recusa em aceitar a posição de vítima passiva. quando ela escreve, por exemplo, “você destruiu quatro vidas por um capricho”, não está apenas falando do adultério, mas da frieza de quem escolheu sair e decidiu retornar sem se responsabilizar pelas consequências do que causou. é nessa parte que já começamos a perceber que o livro não se interessa em absolver ninguém. ele quer expor as rachaduras, os ressentimentos acumulados, o silêncio sufocante da rotina conjugal — tudo aquilo que normalmente se empurra para debaixo do tapete em nome da aparência. a segunda parte muda completamente de tom e nos coloca diante de aldo, o marido que foi embora, teve outra mulher, e depois voltou. sua narração é seca, quase sem emoção. há trechos em que ele parece mais incomodado com o envelhecimento de seu corpo do que com os danos irreversíveis que causou à sua família. sua forma de contar é desapaixonada, marcada por uma racionalização constante dos próprios atos. ele não nega que causou sofrimento, mas parece incapaz de compreender sua gravidade. quando fala sobre vanda, evita mergulhar na dor que provocou. fala dela como quem observa algo de longe — sem se implicar, sem se comprometer. e talvez o mais doloroso seja perceber que ele voltou não porque percebeu o erro, mas porque era mais fácil, mais cômodo. o tempo passou, as forças se esgotaram, e o retorno parece ter sido mais um passo no caminho de menor resistência. seu comportamento transmite a sensação de que, para ele, nada foi tão grave assim, e que o retorno ao lar era uma espécie de restabelecimento natural das coisas. ele age como quem acredita que tudo pode ser refeito, que o tempo apaga, que as palavras ditas e os gestos cometidos já não importam mais. mas a casa que ele encontra não é a mesma. e, ainda assim, ele se acomoda à nova rotina, como se o silêncio dos filhos e a indiferença da mulher fossem apenas marcas do tempo, e não feridas abertas. sua frieza é desconcertante — não como vilania, mas como ausência de profundidade emocional. ele não parece cruel; parece vazio. essa sensação de vazio e desconexão encontra seu ápice na terceira parte, narrada pelos filhos já adultos. é aqui que o livro revela sua camada mais dolorosa: os efeitos do que foi vivido e escondido dentro daquela casa. não é preciso que os filhos contem os detalhes da infância para que a gente entenda o quanto eles foram afetados. suas falas carregam um ressentimento calado, uma ironia amarga, uma descrença total nas relações familiares. o que vemos são dois adultos emocionalmente esgotados, cínicos, que aprenderam a sobreviver com as ferramentas que tiveram — e que agora olham para os pais com um misto de desprezo e pena. quando um deles diz “dos nossos pais, digo, só aprendi uma coisa: que é melhor não ter filhos”, percebemos que não há ali apenas raiva, mas uma compreensão desesperada de que toda tentativa de vínculo tende a repetir as dores herdadas. os filhos aprenderam que o amor vem junto com o abandono, com o silêncio, com a culpa. tudo o que foi encoberto pelos pais — o adultério, a separação, a reconciliação forçada — acabou virando fantasma. e esses fantasmas se instalaram neles, determinando a forma como se relacionam, como se protegem, como desconfiam de tudo. é nesse ponto que a frase mais cruel do livro ganha seu lugar: “seu erro foi que, uma vez que você decide se comportar de modo a ferir profundamente, de modo a matar ou de qualquer maneira danificar para sempre outros seres humanos, você não deve nunca voltar atrás, deve assumir a responsabilidade pelo crime até as últimas consequências, não se comete um crime pela metade.” não se trata de um desejo de vingança. trata-se de responsabilidade. o crime, nesse caso, é afetivo — é o abandono, a traição, o retorno sem escuta, a negação do impacto que isso tudo teve sobre os outros. aldo queria que tudo voltasse ao normal, mas o normal já não existia. e a vida, como os filhos bem sabem, não se refaz com boas intenções ou com pedidos implícitos de perdão. certas coisas, quando quebram, permanecem quebradas. laços é um livro que diz isso sem rodeios. com poucas páginas, mas com uma potência que permanece ecoando muito depois da última linha. em laços, a complexidade dos personagens vai muito além dos erros que cometem ou dos conflitos que enfrentam, o que me levou a começar a sentir pena de ambos de uma forma profunda e sincera. mas antes disso, senti raiva. muita raiva. da indiferença, da covardia, do silêncio, das pequenas violências cotidianas que vão se acumulando como farpas invisíveis. senti raiva porque a dor que causam um ao outro — e aos filhos — às vezes parece fria, gratuita, egoísta. mas à medida que a narrativa avança e vai revelando as camadas internas de cada um, essas emoções se embaralham. não se trata de idealizá-los nem de achar que são seres perfeitos — longe disso —, mas de reconhecer que, apesar das falhas evidentes, eles são humanos em sua essência, sujeitos a medos, inseguranças e dores que muitas vezes ficam invisíveis aos olhos de quem os julga de fora. essa humanidade é o que a narrativa revela de forma sensível e crua, mostrando que os conflitos entre eles não são meramente resultado de escolhas erradas, mas sim consequências de histórias pessoais, traumas e emoções intensas que moldam suas atitudes e suas relações. a pena que surge diante dessa percepção não é um sentimento de compaixão superficial, mas sim uma empatia profunda que nasce do entendimento das dificuldades internas que cada um enfrenta, da luta para lidar com suas próprias limitações e do desejo, ainda que por vezes falho, de se conectar e se reconciliar. é um reconhecimento de que todos carregam seus fardos e que, mesmo quando magoam, o fazem a partir de um lugar de sofrimento e vulnerabilidade, o que torna a experiência de leitura ao mesmo tempo dolorosa, desconfortável e tocante. ao terminar a leitura, fiquei com a sensação de que laços não fala apenas de uma família específica, mas de uma cadeia invisível que atravessa gerações — aquilo que se cala, mas se transmite. me identifiquei especialmente com a última parte, ao perceber o quanto um lar marcado por silêncios e ressentimentos pode moldar, de forma definitiva, a visão que uma criança tem sobre o amor, sobre si mesma, sobre o futuro. às vezes, tudo o que se vive entre quatro paredes se infiltra tão fundo que, anos depois, fica difícil entender se certas escolhas são realmente escolhas — ou só medo. medo de repetir a história dos pais, medo de falhar, de machucar alguém como a gente viu alguém sendo machucado. e aí vem aquele pensamento que, confesso, já me atravessou algumas vezes: será que eu quero mesmo ser mãe? ou será que é só o pavor de fazer uma criança viver aquilo que eu vi? porque, no fim das contas, por mais que a gente tente se afastar, tem coisa que fica. laços me fez encarar isso com mais nitidez — e às vezes, eu acho, a forma mais honesta de romper com tudo isso não é tentando refazer, é justamente não refazer. por mais duro que pareça. mas deixando claro, não acho que preciso ser melhor que eles, nem que devo carregar essa responsabilidade como um fardo de superioridade. eles são humanos, como eu, com erros, medos e limitações. o que sinto é essa dificuldade imensa de lidar com tudo isso sem me perder, sem me deixar consumir pelo medo de repetir os mesmos erros, de criar laços quebrados como os que vivi. não é sobre me achar melhor — é sobre entender que carregar essa história é doloroso, e que o medo de repetir esses padrões é real e persistente. é um medo silencioso que me faz refletir sobre o que quero para mim e para quem vier depois, um medo que me impulsiona a buscar, mesmo que de forma incerta, um caminho diferente, mas sem esquecer que, no fundo, estamos todos tentando nos fazer e nos refazer com as próprias marcas.

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    Domenico Starnone

    Domenico Starnone nasceu em 1943, em Nápoles, e atualmente vive em Roma. Escritor, roteirista e jornalista, é autor de mais de uma dezena de romances. Recebeu em 2001 o Prêmio Strega, considerado o mais prestigiosos da literatura italiana, e, em 2015, venceu o Bridge Prize de melhor romance com Laços.

    14 Livros
    60 Seguidores

    Domenico Starnone