Neste ano em que se comemora o Centenário da Semana de Arte Moderna, tornou-se mais especial a leitura de Amar, verbo intransitivo, romance publicado por Mário de Andrade, cinco anos após o icônico evento de 1922. Por meio de uma linguagem repleta de brasilidade e de crítica social, Mário narra a iniciação sexual de um jovem da burguesia paulistana dos anos 20.
A trama é iniciada com um diálogo propositadamente lacônico entre o patriarca da família e Elza, jovem alemã cerimoniosamente chamada de fräulein contratada para ser governanta dos filhos dos Sousa Costa. Entre as tarefas que lhe caberiam, estavam as aulas de alemão, nas quais eram apresentados textos de autores clássicos, como Heine.
Todas as formalidades envolvidas na relação da família com Elza eram farsescas; à medida que lê, o leitor percebe o jogo de máscaras a que se propuseram as personagens adultas do livro, explicado pelo medo de que o filho mais velho, Carlos, procurasse satisfazer-se sexualmente com prostitutas doentes, por exemplo.
Um dos grandes méritos do livro é justamente não deixar as motivações escancaradas, e mesmo as ações mais tensas ou sensuais são descritas com tanta leveza que reforçam o aspecto da hipocrisia das classes abastadas, com o olhar voltado costumeiramente apenas para o próprio umbigo. Se nunca leu Mário, comece por este. Não vai se arrepender.
Como tombam as expectativas! A alma espera. A postura da espera é estar suspensa e a alma parece então um pinheiro do Paraná, todos os ramos em corimbo, erguidos para cima. Os ramos se sustentam muito bem, ascendendo pro alto, expectantes. Enrija-os a seiva da esperança, que é forte. Mas eis que falha a expectativa. O pinheiro do Paraná vira pinheiro da Suécia. E os ramos descendentes, uns aos outros se apoiando, até que os mais de baixo se arrimam no chão.
Leitura e microrresenha feitas em parceria com Carlos (IG: @o_alfarrabista).