SEI NEM O QUE DIZER, SÓ SENTIR.
Então, esse livro é uma adaptação da tese de doutorado do prof. André Prado da Escola de Arquitetura da UFMG. O tema principal desenvolvido na tese é sobre os conjuntos habitacionais urbanos localizados nas bordas das cidades. Neste estudo de caso, em especial, nas bordas da região metropolitana de Belo Horizonte.
Sendo muito envolvida com o tema, confesso que esperava um relato mais técnico voltado pra arquitetura/urbanismo. No entanto, o livro me encantou pela sua rica abordagem teórica (citando de Lefebvre a Engels, de Le Corbusier a Adorno).
"Este trabalho procurou contribuir para uma discussão crítica em torno do conjunto moderno periférico que, além de se localizar ao fim da cidade, constitui, mantém e reforça o fim desta, em vários sentidos. Corrobora a ideia das bordas urbanas como um "fim de mundo" onde moram somente os despossuídos. Fortalece a produção de novos espaços urbanos que não podem ser chamados de "cidade" por sua falta de qualidade, de vitalidade urbana, onde essa noção e, por conseguinte, a noção de cidadania, não existem. Mas, principalmente, reforça o forte traço da segregação socioespacial urbana que marca a nossa sociedade."
O livro é extremamente denso de informações, conforme se caracteriza como uma pesquisa formal de doutorado, mas a noção geral é esta: cidadãos que realizam o tão almejado sonho da casa própria (seja por habitações de interesse social como as do programa 'Minha Casa, Minha Vida', seja por aquisição particular voltada para a população de baixa renda) e vão morar nas bordas das metrópoles finalmente conquistam o 'direito à moradia', mas perdem o 'direito à cidade'. Isso ocorre porque nesses locais afastados, embora não caracterizados como "precários" pelo autor (adjetivo que ele usa para denominar assentamentos informais e favelas), há sérios problemas com o oferecimento de serviços e bens coletivos urbanos. Ele caracteriza a cidade ao fim da cidade como incompleta, anistórica e injusta.
A partir desse entendimento, ele vai apontar que os conjuntos habitacionais modernos servem a uma estrutura do mercado capitalista que, no geral, direciona e fomenta a urbanização como ela acontece hoje. Faz também apontamentos sobre a dialética entre população e meio ambiente, em que se baseia nas noções de "justiça ambiental" (ou injustiça) e "ecologia política urbana". Expõe os dados do estudo de caso de 9 conjuntos habitacionais urbanos em Belo Horizonte e, por fim, faz uma análise socioambiental do fim da cidade. Quem mora nesses conjuntos? Qual a natureza das bordas urbanas? Como são as edificações nesses locais? Ele faz uma crítica à monofuncionalidade da habitação modernista:
"A monofuncionalidade dessas habitações as transforma em minicidades-dormitório, assentamentos para o pouso noturno. Essa estrutura física dificulta ou interdita a diversidade de uso necessária para gerar encontros, reuniões sociais, convívio coletivo, sem os quais é impossível qualquer construção de autonomia no sentido político. O caráter monofuncional dos conjuntos modernos portanto reforça, mantém, sustenta a heteronomia dos moradores."
Nesse sentido, critica a rarefação de espaços políticos (no sentido material e imaterial) nos conjuntos:
"O tipo de estrutura social criada a partir da estrutura física dos grandes conjuntos não aponta para a autonomia coletiva, para a emancipação. Ao contrário, reforça uma tendência atual das periferias pobres nas grandes cidades como grandes áreas de produção e reprodução da força de trabalho, onde prevalece a sobrevalorização da vida individual e subvalorização da vida social e política, numa espécie de recusa coletiva e inconsciente do direito à cidade."
Para quem se interessa pelo tema, arquitetos, urbanistas, engenheiros, estudantes dessas áreas... vale MUITO a leitura. Me enriqueceu como pessoa e, certamente, como profissional. Uma das melhores leituras de 2018.