Três contos de Dostoievski adaptados para a literatura juvenil por Tatiana Belinky, russa radicada no Brasil com reconhecimento e premiações por seu trabalho de muitos anos no campo literário.
O mais impactante é "O crocodilo", em que Dostoiévski faz uma crítica surreal, extremamente contemporânea, à corrupção no meio econômico. Seja através do sujeito predisposto a tudo na busca do lucro financeiro, tendo desvio de caráter e centralização apenas em seu ego; ou nos arranjos econômicos diversos para conquistas, também independentes da ética e voltados apenas ao ganho pessoal.
Importante ressaltar que o contexto do livro era o mundo em ebulição com ditames da industrialização e transformações no meio de produção. Era o progresso. Campo inspirador ao autor.
Na história, um sujeito tenta ser oportunista numa situação trágica, convertendo tudo para projeto de ganho financeiro, ainda que de forma ridícula e grotesca. Em sua percepção, essa é a prioridade acima de tudo. O meio econômico corrompido é expresso nos arranjos que associam-se na valorização do lucro pessoal.
Narrativa estranha, envolvente e verdadeira a princípios que observamos na atualidade. Um retrato ridículo em ilustração fiel à realidade.
Certo sujeito é engolido por um crocodilo e aí... Ah, vale a conferida!
O ponto a lamentar é que Dostoievski, a exemplo de Gogol, em "Almas Mortas", deixou a obra inacabada, onde destaca-se temática sensacional.
Sabe o que é espantoso? Hoje podemos ver histórias tão deprimentes ou ridículas como essa. Quer exemplo? Muito russos tem buscado indenizações e ganhos tentando se jogar ridicularmente na frente de automóveis. Só procurar no YouTube... Um paralelo que me veio agora.
O conto "Pilhéria sem graça" não entusiasmou-me do mesmo jeito, mas também tem o fator irônico na maneira de certas pessoas tentarem exercer seus princípios. Parece história de político. Um general vai no casamento de subordinado, com pose humanista, contrária a sua real personalidade. No embalo da bebedeira na festa, tem a face revelada, com direito a situação vexatória e subsequente comprovação de que humanismo não se expressa em teorias, mas em atitudes. Lição prática em vergonha passada.
"Um pequeno herói" acompanha um menino de 11 anos na descoberta do amor e seus possíveis desdobramentos em desejos e sofrimentos, transformadores na vida. Vemos a passagem de uma disposição infantil para aprendizagens e ações no impulso da paixão da vida adulta. Algo comum no despontar da adolescência. O diferencial é que, da parte da mulher, a quem teve seus sentimentos transformados, parece que foi correspondido. Lembrou-me o conto "Uns braços", de Machado de Assis, mas com disposições nada platônicas.