Uma analise do trabalho do leitor e do autor cego, recorrendo à história da escrita, do livro e da leitura A obra destaca experiências de escritores – Jorge Luis Borges e João Cabral de Melo Neto, principalmente – com os livros, a leitura, a cegueira e a leitura de terceiros, os ledores. Além disso, discorre sobre as questões que surgem para o leitor e o autor cegos- o uso de audiobooks e aquisição do sistema braile, a perda de sensação de liberdade, de privacidade e do próprio ambiente de leitura. Ao mesmo tempo, leva o leitor a questionar o que é estar cego para ler um texto? Ou ainda, qual é a visão necessária para acessar a literatura? Para tanto, a obra apoia-se em estudiosos, como Alberto Manguel, Roland Barthes, Roger Chartier, Merleau-Ponty, Paul Zumthor, entre outros.
Ler e escrever no escuro - A literatura através da cegueira
Denise Schittine
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Ver mais"Todo leitor é cego ao se deparar com um texto pela primeira vez"
Reflexão sobre o ato da leitura após a perda da visão, Ler e escrever no escuro, de Denise Schittine, também é uma declaração de amor aos livros, feita através das experiências de leitores e de escritores que ficaram cegos e tiveram de buscar outros caminhos para seguir lendo. O ensaio, muito rico em referências, notas explicativas e bibliografia de consulta, começa estabelecendo as dimensões da leitura: a do texto, a do autor, a do leitor e uma quarta formada pela junção das três anteriores e totalmente moldada pela experiência de apreciação da obra literária. Contos como A tradução, de Antonio Tabucchi (autor de Afirma Pereira), e Mondo di Carta, de Pirandello (autor de O marido de minha mulher) apresentam algumas dessas dimensões, segundo analisa Denise. No texto de Tabucchi, o narrador conta a história para um leitor que ele supõe cego. Enquanto a novela de Pirandello apresenta um professor bibliófilo que ao perder a visão precisa contratar um ledor. A figura do ledor é um dos principais pontos de análise da autora. O livro, que foi lançado antes da popularização dos audiobooks, embora já existissem há bastante tempo discos de vinil, fitas cassete e CDs com leituras de livros, traça um histórico da leitura em voz alta desde a antiguidade até a utilização desse recurso por autores como o argentino Jorge Luis Borges, um dos expoentes do Boom Latino-americano. Borges, que continuou escrevendo e publicando mesmo depois de ficar cego, recrutava desde familiares como sua mãe e depois a filha, até alunos, amigos ou qualquer pessoa com quem tivesse contato, para que lesse em voz alta para ele. Além disso, conhecia cada palmo da própria biblioteca, como acontece com o personagem de Pirandello em Mondo di Carta. Outro autor que tem um capítulo inteiro do ensaio de Denise dedicado à sua relação com os livros após a perda da visão é o poeta João Cabral de Melo Neto. Cabral teve uma convivência mais difícil com seus ledores porque o próprio poeta afirmava não conseguir prestar atenção ao texto quando outras pessoas liam para ele. A realidade da cegueira também foi mais melancólica no caso desse autor do que foi para Borges. Charles Dickens ilustra o capítulo sobre leitura em voz alta. Embora Dickens não tenha ficado cego, as leituras públicas que o autor realizava para promover seus livros se tornaram lendárias. Denise parte desses eventos para refletir sobre a interferência da voz no texto escrito e compara as performances quase teatrais das leituras públicas, que segundo ela ocorrem desde o século I depois de Cristo, com a neutralidade que se espera de um ledor para cegos. O ledor precisa "desaparecer", tornar-se imperceptível no texto, para que com a entonação ou a respiração errada, não leve o leitor cego por caminhos interpretativos enviesados e contaminados por sua percepção. É importante ressaltar que toda a argumentação da autora está focada em ledores humanos e na sua interação com o leitor cego, sem levar em consideração ferramentas como IAs. É a leitura como exercício máximo de altruísmo, um ato de "compartilhar sem interferir", como escreve Denise, de doar a própria voz para o deleite literário de outra pessoa sem atravessar o processo dela de fruição. Livros como Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, aparecem como recurso de análise para o processo da memória no ato da leitura. Em Fahrenheit 451, todos os livros estão proibidos e são queimados por bombeiros a serviço de um Estado opressor que mantém o controle social pela alienação. Um grupo de bibliófilos, acadêmicos e literatos se dedica a memorizar obras inteiras para evitar a perda do saber contido nos livros. Personagens da antiguidade, como o adivinho Tirésias, que prevê o destino desgraçado de Édipo, e Homero, o poeta quase lendário a quem se atribui a Ilíada e a Odisseia, também aparecem no capítulo sobre a importância da memória e sua relação com a leitura e a cegueira. Principalmente para o leitor cego, a memória é um fio condutor da experiência de leitura. Borges tinha uma biblioteca inteira dentro da cabeça, como diziam seus ledores voluntários. O autor conseguia, inclusive, corrigir erros na leitura em voz alta feita para ele por outras pessoas, por saber trechos dos seus livros favoritos. Eu, que sofro do problema de João Cabral de Melo Neto com a leitura em voz alta (basta alguém começar a ler para mim, que a minha atenção se dispersa), tive uma grata surpresa ao entender a literatura, minha maior paixão, através da cegueira. Me deixei guiar pela prosa segura e afetiva de Denise, e pelos romancistas e poetas que ela cita, e foi uma travessia reveladora. Como ela mesma afirma e destaquei no título desta resenha: "Todo leitor é cego ao se deparar com um texto pela primeira vez". O ensaio de Denise Schittine é aquele tipo de livro que a gente termina se sentindo um pouco mais inteligente e, certamente, muito mais humano... Ler e escrever no escuro Autora: Denise Schittine Editora: Paz e Terra, 2016 462 páginas R$ 54,58 (brochura, Amazon) *E-book disponível para empréstimo na BibliOn
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