Um livro intenso, escrito por uma autora camaronesa, que escreve a partir da perspectiva daqueles que ficam em seu país de origem, enquanto membros da sua comunidade são sequestrados para serem escravos. Uma escrita e ponto de vista muito singular, difícil, mas sincera. Tentando compreender onde foram parar os seus, no momento em que novas dinâmicas políticas e genocidas assolavam seu país, Léonora Miano conseguiu colocar, nos personagens, a comunicação, a vontade de manter os vínculos com a cultura e local de origem. É a partir desse sentimento, invocado oralmente por tantos séculos, que nos é permitido conhecer uma história como essa.
"Depois das narrativas de Mutimbo e de Mukudi, ela tentou, diversas vezes, imaginar como seria aquilo. Pessoas imobilizadas, com a cabeça raspada, despojadas do seus amuletos, do seus adereços. O que não estava nas palavras, porque isso não se pode contar, eram os olhares transbordantes de angústia. Aqueles olhares que também eram de desafio, olhares que dizem que um dia haverá de nascer, mas que a noite será longa. As narrativas não falavam do ronco na barriga, de uma mulher imobilizada, da postura de meninos ainda não se circuncisados. As palavras também não permitiam imaginar as correntes. É a primeira vez que ela as vê. De nada serve a mulher ter admitido que os rapazes aprisionados no país mulongo não existem mais, ela esquadrinha o rosto dos presos, cada um deles, com a louca esperança de reconhecer alguém. Eles não estão ali, mas são eles que ela vê."