Minhas expectativas para A Invasão de Tearling eram bem baixas. Eu gostei do primeiro livro, mas ao mesmo tempo não estava tão empolgada assim para continuar. Preciso dizer que isso tem bem pouco a ver com a história e bastante com a edição, que tem uma diagramação bem fechada, o que dificulta na leitura. Porém, com certa perseverança, tive uma surpresinha com esse livro.
Em A Rainha de Tearling muitas perguntas surgiram. Aprendemos que havia um mundo igual ao nosso “antes”, algo aconteceu, uma travessia marítima foi feita, barcos naufragaram e muito se perdeu, levando os sobreviventes à era medieval novamente. Porém, as explicações pararam por ai. Com isso, eu tinha duas coisas em mente: ou isso seria toda a informação que receberíamos e seria um típico “lide com isso”, ou a autora iria começar a explicar algumas coisas, e eis que era exatamente essa segunda opção. Entretanto, o que ela explicou não chegou nem perto do que eu estava pensando e minha cabeça praticamente entrou em colapso conforme eu ia juntando as peças dessa história.
E não, eu não vou tentar explicar o que foi explicado, porque seria um gigante spoiler e a experiência de descoberta aqui vale muito a pena, então minha recomendação fica já no começo dessa resenha: leia A Invasão de Tearling.
Eu, particulamente, achei esse livro mais leve e fluído que o primeiro e talvez por isso a diagramação tenha incomodado menos. Parece que há uma maior cadência na trama, o que facilita o andamento da história. Com isso, logo depois de já ter virado a página 100, estava ansiosíssima pra saber onde tudo aquilo ia levar.
A narrativa se divide em dois momentos: o presente de Kelsea, e o passado de Lily. Não vou mentir que até a trama de Lily fazer sentido, foi um porre acompanhar as partes onde o ponto de vista mudava para o dela. É uma personagem oprimida e agredida pelo marido, vivendo num momento do mundo onde já há pouca ou quase nenhuma voz às mulheres e a impotência que ela representava me atormentou. O fato de não entender porque precisamos acompanhá-la num primeiro momento também não ajuda. Mas, a coisa se desenrola de forma a corrermos pela sua parte para retornar a Kelsea e logo vemos que há um pouco mais escondido nessa parte da narrativa.
“Ela não parecia as rainhas das histórias de seu pai, que eram sempre mulheres delicadas e bonitas como a ruiva do regente. Essa mulher parecia… forte. Talvez fosse o cabelo curto, curto como o de um homem, ou talvez fosse o porte, de pé com os pés separados e uma das mãos batendo com impaciência no quadril. Uma das frases favoritas do pai surgiu na cabeça de Ewen: ela parecia uma pessoa com quem ninguém devia se meter.”
Em contra partida, ver a evolução de Kelsea foi uma faca de dois gumes. Primeiro foi interessante ver ela se tornando mais inteligente, se descobrindo mulher, buscando soluções e tentando se encontrar. Por outro lado o fator “representatividade e diferencial” que marcava o físico da personagem foi aos poucos alterado pela influência das pedras e a não tão bonita ou magra Rainha acabou por se tornar bonita e magra Rainha. E ai, digo a vocês, não sei bem como eu me sinto com relação a isso. Eu gostava desse “Q” de ela não ter o perfil tradicional, é inclusive o que ajuda a vender o livro como diferencial. E ai, foi retirado. Pode ser que haja uma grande mudança nesse aspecto quando aprendermos mais sobre as joias, porém ficou um gosto agridoce com relação a isso.
Vamos ter vários novos personagens aqui que vão ajudar a evoluir a trama e foi bacana já iniciar com um deles e perceber que o livro iria tomar caminhos diferentes. Também vamos descobrir muitas coisas sobre a Rainha Vermelha e o encantamento que a cerca. A “criatura” que lhe deu o que ela tem também vai ser mais trabalhada aqui e a trama termina em um ponto de completo caos, mas muitas descobertas. Sabe aqueles finais impossíveis de esperar pelo próximo? Pois é, quero pra ontem. E lembra que lá em cima eu disse que nem tava muito no pique de ler o livro? Vejam só.
Quero deixar uma menção honrosa ao Pen, nessa resenha. Ele super cresceu no meu conceito, enquanto o Clava, que prometia fazer e acontecer, se manteve apagado. Outro que aparece e desaparece e que acho que ainda vai dar o que falar é o Fetch, ainda temos muito o que descobrir sobre ele e espero que a autora não se esqueça disso.
A Invasão de Tearling entrou para a minha lista de melhores continuações lidas em 2017 pela forma como foge pera tangente para nos apresentar o verdadeiro background da história que estamos lendo. Como aos poucos, página a página, conecta elementos que parecem não fazer sentido uma centena atrás. E, quando temos todas as peças, parece que as perguntas só fazem aumentar junto com a gama de possibilidades que se abre sobre essa história.
Então, caso você já tenha lido A Rainha de Tearling, só vai, porque esse livro vale muuuito a pena. Agora, se você nem começou, fica aqui a dica de uma daquelas trilogias que tem muito mais a revelar do que o que está na superfície e que deve estar toda lançada ainda no primeiro semestre de 2018.