As depressões de Herta Müller não são psíquicas. São geológicas: terras baixas, vales, fossas. São também buracos onde se dá a putrefação humana: o caixão, a cova, a latrina.No relato que dá título ao livro, a menina vê o pai no ataúde. Vaga entre sepulcros. Chora sentada na privada porque é proibida de chorar sem razão. Senão a mãe a espanca e diz: agora você tem motivo para chorar. Avós, pais e neta se sucedem na banheira para fazer a higiene semanal, afundam na mesma água onde boia a sujeira do clã.Se os lugares e coisas são insalubres, os temas dos contos de estreia da Nobel de Literatura são lúgubres: alcoolismo, solidão, adultério. Sobretudo violência. Dos homens com as mulheres, das mulheres com as crianças, das crianças com os bichos, de todos com todos. Depressões cava fundo nas baixarias da Romênia rural do pós-guerra. Mostra que a cultura camponesa, a Igreja Católica e o stalinismo se enraizavam na opressão patriarcal. Herta Müller revela um submundo cujas sombras se projetam no presente. Mario Sergio Conti - Colunista da Folha
Depressões (Coleção Folha Mulheres Na Literatura #9) -
Herta Müller
Sobre a necessidade de conhecer vozes amargas e ásperas
É um fato incontestável: basta ler um pouco da biografia de Herta Müller para se sentir atraído por qualquer livro dela. Sendo o pai nazista e a mãe deportada, ainda adolescente, para campos de concentração de trabalho forçado da União Soviética, a literatura de Müller é conhecida, além dos relatos autobiográficos, por ser fonte de resistência ao preconceito. A leitura de ‘Depressões’, livro de contos que narram uma aldeia alemã em tempos de ditadura militar aparentam ser uma porta de entrada perfeita para conhecer a autora, mas o mesmo se mostra, com o passar das páginas, embora necessário, bastante intragável e que o leitor, mesmo o mais persistente, não veja a hora de acabar logo, para se livrar de tão pesado fardo. O curioso é que o livro não chega nem a 200 páginas, mas parece que dispõe de muitas centenas, um prolongamento difícil de histórias dolorosas de pouco mais de três páginas, cada, exceto a história que dá título a coletânea. ‘Depressões’ é uma novela em que conta o dia a dia de uma adolescente descobrindo o mundo, aparentemente comum para ela, já que ela sempre viveu naquela miserabilidade opressiva sem conhecer outra versão do mundo, por mais ínfima que seja. É através da inocência da garota que o leitor vê o quão cruel e sufocante é a vida naquela aldeia pobre, esquecida por todos, e como a garota não percebe pelo olhar dos pais o quão eles poderiam ser felizes, mas não têm força de tentar melhorar de vida. O comodismo é gritante, e o leitor precisa respirar fundo diante de tal disparate. O mesmo conformismo escancarado diante de tal sofrimento se encontra em pequenos contos, como ‘O banho suábio’ e ‘Dia de trabalho’, impregnando fortemente em ‘Crônica da aldeia’, um conto sem clímax, mas que mostra que, ao contrário do que muitos pensam, uma vida rural e urbana, naqueles dias ditatoriais, era idêntica, com apenas palavras e expressões diferentes para explicar a cada tipo de sociedade o que estava acontecendo ali. Longe de ser uma literatura prazerosa, Herta Müller e sua escrita têm a difícil missão de representar os desapossados, como citou a própria Academia, aqueles grupos e nações que sofreram, e ainda sofrem, diante de um sistema político opressor que cala e dita o povo, mesmo que para isso seja necessário matar. Diante de tal circunstância, tal grupo é necessário para o mundo, as vozes que lutam pela liberdade de expressão, por dias melhores. Uma literatura consistente e de qualidade, o fato de ter histórias dolorosas e intragáveis demais faz com que o livro seja abandonado com frequência, esquecido na cabeceira da cama, não por ser ruim, mas por ser real demais para se ler de uma vez só. Uma página ou outra por dia às vezes se mostra mais que o suficiente para se acompanhar. Este livro faz parte do projeto 'Lendo Nobel'. Mais em:
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