Mesclando textos em prosa poética a versos que revelam um olhar atento ao cotidiano e aos personagens da vida urbana, José Fernando Guedes constrói suas cenas e histórias com raro talento. Entre as emoções diárias que vivemos e/ou observamos e o voo inocente dos pássaros que nos veem do alto, o poeta revela sempre algo a mais – abrindo nossos olhos para a beleza do que está à vista de todos, e só é preciso parar para enxergar.
Revoada -
José Fernando Guedes
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"... Gosto de ver a revoada dos pássaros no céu e erguendo a mão acenar (será que me veem?) E gritar, enquanto salto: Esperem, vou também com vocês!" (Revoada) Quero apresentar aos amantes da poesia e também para quem tem uma quedinha ou curiosidade de conhecer de perto o universo sensível de quem poetisa não só o amor, mas também tudo o que é vivido e visto durante os dias de luto, de horas corridas, de conexões, de fé etc... Na companhia de um animalzinho, nas amargas mazelas que temos que conviver, no ato de parar e observar a natureza etc... Tantas poesias que perdemos por conta da pressa em viver. "As aves, os vaga-lumes e teus olhos são luzes de presença me indicando o caminho nessa terra." (Luzes de Presença) Não lembro a última vez que li um livro de poesia, e talvez por isso, fiquei com uma pontinha de receio se haveria conexão com o poeta, mas, as inspirações de José Fernando Guedes não só me conquistaram, mas levaram-me também a revoar e mergulhar, dos altos céus, em límpidas águas para pescar o alimento que sempre é deixado de lado quando não enxergamos mais as sutilezas e simplicidades cotidianas. Sua sensibilidade me fez voltar a observar o que é presente ao meu redor e unido ao seu olhar, há também a beleza em expor tantas emoções por meio de simples palavras. Foi assim que Revoada me fez compreender nas entrelinhas poéticas os movimentos do mundo que o poeta compartilha. Qual mundo? O mundo que não está longe, estar no lar, no trabalho, nos relacionamentos, na natureza ou na selva de pedra. O mundo que conseguimos compreender sem precisar de lupa ou microscópio para notar a poesia que habita lugares e pessoas. É assim que a poesia de José Fernando Guedes nasce, por meio das cenas simples e cotidianas, como estas: A incansável e reflexiva espera de um cãozinho para atravessar o outro lado da rua. A inocência de uma criança com seu membro amputado buscando nessa ausência mais que uma realidade e sim significado. As peculiaridades de um relacionamento à distância por meio da tecnologia. O homem que anseia descobrir o universo feminino viajando em seus mistérios. O reflexo no espelho que diz mais do que aquele que o olha todos os dias... E até as crianças de uma escola em Angra dos Reis viraram poesia pelo olhar do autor! "Sigo pela cidade como o sol percorre o céu da cidade e se vai sem deixar marca alguma. Cruzo a cidade como uma lágrima cruza um rosto, sem deixar rastro discernível naquele rosto que envelhece em rosto..." (A Flor Eterna) Por meio de 50 poesias nas páginas e mais uma na contracapa, as riquezas humanas se transmitem. A leitura é fluída, porque algumas inspirações são objetivas sem perder o sentido e as extensas não me deixaram fadigada. Você encontrará muitos significados em apenas 76 páginas, porém, quero deixar aqui um lembrete: pela profundidade das poesias e pela forma como elas raptam a atenção, é inconcebível finalizar a leitura em pouco tempo, pois esta obra, assim como outros gêneros, precisa também ser vivida e recebida aos poucos em nosso âmago. Deixo então esta dica para quem tem buscado algo novo e arrebatador do gênero. Não tema e nem deixe de viver esta Revoada, pois ela levará à viver ou experimentar novos voos, sons, passos e olhares através de sua leitura.
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