Uma poesia decantada e encantada - Prefácio
“Primevo” de Samara Porto denuncia uma poeta a caminho da maturidade. Maturidade entendida como aquele estágio de consolidação e potencialização da experiência individual, inclusive criativa, que nos mostra um feliz consórcio das faculdades da escritora. Onde suas fibras entraram em vibração para propiciar o transporte das “verdades” do seu mundo interior para o plano da obra, ou seja, aquela capacidade depurada pela vontade e pelo tempo que faz elevar ao consciente o que era inconsciente. Mas não somente. Há também as imbricações e questionamentos que iluminam os momentos de abertura do ser, no qual a madureza adquire um raro poder de encantamento. Graças ao hábil manejo das forças de seu interior, plasmadas ora em uma vigorosa imaginação, ora em seu sentir profundo, a autora emprega as palavras de tal forma que constituem o poderoso veículo do conhecimento que temos das coisas. É que a linguagem, nunca é demais lembrar, não é um signo como os outros: é tão profundamente um signo que em hipótese nenhuma deixa de o ser; ao invés de ser um signo para o pensamento constitui o próprio pensamento, uma vez que é ao mesmo tempo o significado e o significante visados pelo pensamento. Notadamente em poesia, se assim bem nos expressamos. Se assim bem o expressamos, porque o mundo subjetivo e o objetivo aderem-se e imbricam-se de tal maneira que formam uma só entidade, subjetiva-objetiva com a forçosa predominância do primeiro. É então que esse mundo interior, esse eu-profundo, ultrapassa o plano da consciência e da inteligência discursiva, e mergulha no caótico, no vago onde se depositam as vivências decorrentes do contato com o mundo exterior e transfiguradas pela imaginação. Nesse ponto não há como deixar de lembrar de Fernando Pessoa, influência manifesta na obra da autora. Do que viemos até aqui afirmando sobejam exemplos em vários de seus poemas. Mas o que vale é a obra em si, vista em seu conjunto. Sua verdade e seu núcleo de interesse para o leitor. Sob essa perspectiva sentimos que o conteúdo emocional dos mais de cem poemas reunidos, em suma, nos convidam ao salto para o estágio do conhecimento. Sem ele, a emoção se desvaneceria porque ficaria na superficialidade. É a inteligência que fixa a emoção e desvenda nela aquilo que a torna um meio de conhecer. Conhecer é o termo porque nos conduz a novas formas de fruição, que nos faz sentir que não estamos sozinhos em nosso sofrimento e solidão; que expõe nossos problemas a uma nova luz; que sugere novas possibilidades e nos abre campos de experiências; que nos oferece uma variedade de estratégias simbólicas mediante as quais nos tornamos aptos a circunscrever as nossas situações. E mais ainda, e muito digno de nota. A autora sabe e vem nos lembrar de que a centelha divina de que somos feitos, e que vulgarmente damos o nome de alma, jamais poderá ser morta ante os desmandos que praticamos (impossível não citar os poemas “Dores do mundo” e “Livro das ignorâncias” que devem ser lidos e relidos). Ao contrário, continuemos, a alma está sempre pronta a ressurgir com uma potencialidade nunca satisfeita de ser e de criar. Isto é o que em nós, verdadeiramente vive. Nenhuma conquista do pensamento, nenhuma afirmação humana poderá jamais extinguir nossa sede de infinito. Bem-aventurados não são os que vivem sem saber e sem inquirir. Bem-aventurados são aqueles cujo espírito nunca está saciado de conhecimento e de um melhor existir, que lutam e sofrem para realizar sempre mais elevadas conquistas, os que buscam “um atalho para o novo”. Toda essa experiência colhida no contato com a imaginação criadora e o sentimento da autora, contribuem para enriquecer a nossa maneira de ver a vida. Esta maturidade trabalhada e compartilhada aqui nos instiga a convidar o leitor a conhecer o fascinante mundo de Samara Porto. Krishnamurti Góes dos Anjos

