Diário de viagem -

    Albert Camus

    Editora Record
    2017
    128 páginas
    4h 16m
    ISBN-13: 9788501111272
    Português Brasileiro

    De um dos mais importantes e representativos autores do século XX e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura Este Diário de viagem de Albert Camus, publicado na França em 1978, traz as impressões anotadas pelo escritor em duas viagens: aos Estados Unidos, em 1946, e à América do Sul (principalmente o Brasil) entre junho e agosto de 1949. Durante sua estada em nosso país, Camus registra observações preciosas sobre vários aspectos da vida brasileira, comentando ainda seus encontros com Aníbal Machado, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Oswald de Andrade, Mário Pedrosa e muitos outros. São de leitura obrigatória para o leitor brasileiro os comentários aguçados feitos pelo pensador francês sobre este “país em que as estações se confundem umas com as outras; onde os sangues misturam-se a tal ponto que a alma perdeu seus limites”.

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    Kakau09/03/2025Resenhou um livro
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    “O mar é assim, e é por isso que eu o amo. Chamado de vida e convite à morte.”

    “Até perder de vista, na noite ainda não inteiramente densa, o mar — e um sentimento de calma, uma poderosa melancolia sobem, então, das águas. Sempre apaziguei tudo no mar, e essa solidão infinita me faz bem por um momento, embora tenha a impressão de que este mar hoje esteja chorando todas as lágrimas do mundo. Volto ao meu camarote para escrever isto — como gostaria de fazê-lo todas as noites, sem dizer nada de íntimo, mas sem nada esquecer dos acontecimentos do dia. Voltado para aquilo que deixei, com o coração ansioso, gostaria, contudo, de dormir.” “Diário de Viagem”, de Albert Camus, à primeira vista, pode ser interpretado como simples relatos de suas andanças pelos Estados Unidos e pela América do Sul. Contudo, à medida que suas páginas se desenrolam, a obra se revela uma reflexão profunda sobre a natureza da experiência humana, o distanciamento cultural e a solidão existencial que permeia a própria existência do autor. Publicado postumamente em 1978, este diário não só expõe o olhar atento de Camus sobre os lugares e as culturas que visitou, mas também nos convida a questionar a condição humana, tal como ele fazia em suas obras filosóficas mais renomadas. Em cada cidade, em cada encontro, suas observações nos conduzem por um universo de contrastes sociais, históricos e filosóficos, onde o sentido da existência parece estar eternamente fora de alcance. Camus não se contenta em registrar uma simples viagem geográfica; ele se lança, na verdade, em uma jornada profunda e filosófica em busca de compreender o absurdo da vida, onde o cotidiano se funde com as inquietações complexas e intrincadas de seu pensamento existencialista e desencantado. Uma verdadeira crise existencial, transposta para a forma de narrativa literária. Minha primeira impressão ao iniciar a leitura de “Diário de Viagem” foi a de uma mudança brusca no estilo de Albert Camus, especialmente em relação ao livro anterior que li, “O Estrangeiro”. Em termos de escrita, eu não esperava uma desconexão tão grande do estilo característico de Camus. Talvez, por ser uma compilação de anotações feitas pelo autor durante duas viagens ― uma aos Estados Unidos e outra à América do Sul, com foco no Brasil ―, a escrita fosse mais simples e menos refinada, já que se tratava de um registro pessoal. Embora isso possa parecer óbvio para alguns, no início, causou-me certo estranhamento, pois, de algum modo, eu esperava algo diferente. Esse desconforto inicial me fez temer que eu não fosse gostar do livro, mas, à medida que me acostumei com o formato, percebi que essa impressão estava completamente equivocada, dado o propósito claro da obra. Não apressei-me em julgar o livro, pois entendi que o estranhamento era apenas reflexo das minhas expectativas. Aos poucos, percebi que os questionamentos filosóficos e existenciais de Camus se tornavam mais íntimos e imediatos, enquanto cada cidade visitada refletia suas inquietações mais profundas — a busca pelo sentido da vida, a inevitabilidade da morte, a injustiça e a desigualdade. Não se tratava apenas de um registro de viagem, mas de um mergulho introspectivo nas questões internas do autor. Ao final, o estranhamento inicial revelou-se mais uma projeção das minhas expectativas pessoais do que uma falha intrínseca da obra. A viagem de Albert Camus aos Estados Unidos e à América do Sul em 1946 não foi apenas um registro de jornada, mas uma imersão profunda em suas inquietações filosóficas. Ao testemunhar a vitalidade e os excessos da sociedade americana, adotou um olhar simultaneamente crítico e melancólico. Sentia-se distanciado das interações humanas impessoais nas grandes cidades, como Nova York, onde o frenético consumo e a superficialidade da vida cotidiana pareciam negar a finitude da existência, refletindo sua filosofia do absurdo. Para ele, a incessante busca por distrações era uma tentativa desesperada de escapar da consciência da morte. Sua indignação diante da segregação racial e das injustiças sociais que presenciou nos Estados Unidos aprofundou sua crítica às divisões e alienações da sociedade. A hipocrisia latente na vida americana o remeteu às disparidades que já observava na Argélia, alimentando sua reflexão sobre as desigualdades estruturais. Ao chegar à América do Sul, suas impressões tornaram-se ainda mais complexas. No Brasil, o contraste entre a exuberância natural e as profundas desigualdades sociais o chocou. No Rio de Janeiro, a energia vibrante da cidade evocava lembranças da Argélia, onde as misérias eram frequentemente ignoradas ou romantizadas. Em São Paulo, a frieza da urbanização industrial acentuava seu sentimento de isolamento, levando-o a refletir sobre a solidão filosófica no coração da vastidão urbana. Contudo, foi em Salvador e Recife que Camus encontrou um inesperado consolo. Especialmente em Salvador, onde o sincretismo religioso e as festas populares não apenas resistiam, mas afirmavam uma identidade cultural resiliente diante da adversidade. Nesses encontros, vislumbrou uma realidade mais rica, vibrante e multifacetada, onde a beleza e a dor coexistem, e a resistência cultural se transforma em um ato profundo e revelador de afirmação da vida. Após a leitura deste livro, não pude deixar de reafirmar, tanto para mim mesma quanto para quem quisesse ouvir: Albert Camus carregava em si as marcas da depressão. Uma energia apática permeia suas anotações de viagem, e uma exaustão quase tangível se insinua nas entrelinhas. A cada página, a impressão de um homem solitário, talvez não muito feliz, se torna mais nítida. Ele se entregava ao prazer da escrita, do ato de ler, de se perder no universo das palavras. E, nesse aspecto, percebo uma afinidade entre nós, talvez também no sentimento. Notei que ele passava longos períodos contemplando o mar durante suas viagens, afirmando que a tristeza encontra boa companhia nas suas águas. O mar, para ele, chorava todos os dias — talvez um reflexo do que também habitava em seu íntimo. Essa melancolia parecia entrelaçada à sua existência, tão inseparável quanto a fragilidade de sua saúde. A viagem, por sua vez, foi permeada pela doença. Do princípio ao fim, ele permaneceu febril, mas enfrentava isso com uma indiferença quase desconcertante, como se fosse apenas um detalhe irrelevante da vida. Retornava à sua rotina, retomava suas atividades, como se o corpo não tivesse limites, como se a doença fosse algo a ser negligenciado, sem relevância ou consideração. “Se o suicídio é permitido, é numa dessas situações em que um homem está sobrando no seio da família e em que sua morte devolveria a paz a todos aqueles que sua vida perturba.” Esse trecho, embora breve, carrega uma intensidade arrebatadora, e, segundo suas próprias palavras, traduzia com precisão o estado de espírito que ele vivia naquele momento. Ao me deparar com o “Diário de Viagem”, senti-me como uma intrusa, invadindo um espaço que se revelava profundamente íntimo. Curiosamente, aquelas anotações não eram apenas registros de uma jornada, mas se desdobravam em revelações íntimas de sua alma. Camus não se limitava a escrever sobre o que via, mas também sobre o que sentia, sobre as angústias e inquietações que o mundo despertava nele. Às vezes, expressava essas emoções com uma leveza vaga, como se fossem algo secundário, quase descartável; mas, em outras ocasiões, sua escrita se tornava envolta em uma melancolia pungente, especialmente ao contemplar o mar. Ali, parecia encontrar um reflexo de sua própria tristeza, como se as águas se confundissem com as lágrimas que ele reprimia, aquelas que nunca chegavam a seus olhos. Ele era um homem marcado pela dor e pela melancolia, alguém profundamente desiludido com a vida. Suas viagens, ao que tudo indicava, não lhe trouxeram a felicidade que ele tanto buscava. É curioso afirmar isso, pois, embora eu não possa saber com exatidão o que ele sentiu, li suas palavras, e elas falam por si mesmas: ele era um homem dilacerado pela angústia da existência. Invasora de diário, como quando uma mãe lê o seu sem permissão, ou como uma amiga que, ao pegar o diário das mãos dele, começa a ler sem cerimônia, enquanto corre de Camus, e ele grita, desesperado: “Me devolva isso agora, não faça isso!” Foi como quando li “Carta ao Pai”, de Franz Kafka, e senti que adentrava sua mente, suas palavras tão pessoais e identificáveis, como uma intrusa, pois pareciam íntimas demais, pessoais demais. Sentimentos crus. O mar, verdadeiro amigo de sua dor interna. Será que ele te entendia, Camus? Compreendia teus sentimentos? Talvez compartilhassem disso, assim como a leitura, que se tornava um refúgio. Estando eu mesma imersa em melancolia ao olhar para o mar, imagino que sentiria os mesmos sentimentos, sem dúvida. Quanto às viagens, as anotações são um tanto vagas, mas, sinceramente, para mim, o que mais importa não são os lugares por onde ele passou, mas seus sentimentos. Cada palavra lançada ao vento se conectava com outras, e, ao final, ao observar, a tristeza se tornava palpável, como se fosse minha. Sinto-me igualmente triste, sinto-me uma invasora. Adentrei seus pensamentos, me sentei ao seu lado e disse: “Tudo bem, posso ser sua amiga, assim como o vasto mar.” “Diário de Viagem” é uma obra profundamente íntima, ideal para aqueles que já apreciam Albert Camus e desejam enxergá-lo além de sua escrita, compreendendo-o como ser humano, com suas angústias, inquietações e reflexões. O livro se apresenta como uma coleção de anotações pessoais, oferecendo um vislumbre direto de sua experiência no mundo, marcada pela sua intelectualidade aguda e, ao mesmo tempo, por sua solidão existencial. Embora tenha apreciado imensamente a leitura, não atribuí cinco estrelas à obra, pois acredito que a verdadeira excelência de um livro vai além do conteúdo; ela se reflete também na construção narrativa. Para mim, um livro cinco estrelas é aquele que, além de apresentar uma história envolvente, se destaca de maneira primorosa em todos os aspectos: na escrita, na profundidade das ideias e no impacto emocional. As primeiras anotações de “Diário de Viagem”, embora autênticas e pessoais, me pareceram um tanto vagas no início, o que acabou impedindo que eu atribuísse à obra a nota máxima e causou certo incômodo. Contudo, sua essência e a reflexão proposta por Camus ao longo das páginas foram profundamente cativantes. O autor, com suas meditações sobre o mundo, o ser humano e suas interrogações existenciais, me levou a questionar o próprio sentido da vida diante de um universo que, embora vasto e belo, muitas vezes nos parece indiferente. O livro se revela muito mais do que um relato de lugares e experiências; é uma reflexão profunda sobre o estar no mundo e o dilema existencial de ser, ou não, pertencente a ele. Ao final, Camus não é apenas o estrangeiro em terras desconhecidas, mas também em sua própria existência, e é justamente essa condição de estranheza que o torna tão profundamente humano. Recomendo esta obra imensamente a todos! “Essa hora que vai do sol desaparecido à lua apenas nascente, do oeste ainda luminoso ao leste já escuro. Sim, amei muito o mar — essa imensidão calma — esses sulcos recobertos — essas estradas líquidas. Pela primeira vez, um horizonte à altura de uma respiração de homem, um espaço tão vasto quanto sua audácia. Sempre estive dilacerado entre meu apetite pelos seres, a vaidade da agitação e o desejo de me tornar igual a esses mares de esquecimento, a esses silêncios desmedidos, que são como o encantamento da morte. Tenho o gosto das vaidades do mundo, dos meus semelhantes, dos rostos, mas, fora do meu tempo, tenho uma regra própria, que é o mar e tudo que se lhe assemelha neste mundo. Ó suavidade das noites, em que todas as estradas oscilam e deslizam por cima dos mastros, e esse silêncio em mim, esse silêncio, afinal, que me liberta de tudo.”

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