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    A menina que carregava bocadinhos -

    Valter Hugo Mãe

    Coolbooks
    2015
    18 páginas
    36m
    ISBN-13: 9789897660566
    Português
    4.9
    5 avaliações
    Leram7Lendo1Querem6Relendo0Abandonos0Resenhas2
    Favoritos2Desejados6Avaliaram5

    A menina entrou na casa grande com nove anos para trabalhar em troca de sopa e de um colchão estreito. Estava muito salva, diziam-lhe ajuizadamente todas as pessoas. Se não a tomassem como criada teria apenas a miséria por garantia. Naqueles tempos, a pobreza não se curava senão com a piedade de quem podia, e ela acedeu ao seu destino assim pequena, feita de ossos fininhos, uns olhos claros esbugalhados de ansiedade, confusa com palavras educadas que nunca ouvira e deslumbrada com o enfeitado da casa. Pensava: vão engordar-me, vão acalmar-me, vão educar-me as palavras e pôr-me bonita.

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    Yohanzinho 𐚁 picture
    Yohanzinho 𐚁27/02/2026Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    Inveja de puta, Deus não escuta.

    "De todo modo, não era nada complicado de entender. Talvez quisesse ser um pouco bonita, nem que apenas aos domingos, para a missa, como quem interpreta um teatro, como quem representa o que não é e pede a felicidade emprestada. Como se, por uns breves instantes, a vida dos trabalhadores fosse coisa diversa e tivesse passeio ou amor." Pela segunda vez lendo Valter Hugo Mãe, não tenho o que comentar. Não tenho o que agregar. Os livros parecem completos, fechados em si. Me fez ate acreditar que seria uma versão mais rústica do livro a hora da Estrela, mas não. Essa tomada de consciência me lembrou Macabéa, de A Hora da Estrela, mas pela diferença fundamental entre elas. A menina que carrwgava bocadinho se sentiu no direito de amar, de ser um pouco bonita, ela nao so desejava. Ela entendeu que podia querer. Nem que seja só aos domingos, para a missa. Macabéa deseja sem saber que pode desejar. Já a menina que carregava bocadinhos entende. E quando entende, não cabe mais no lugar onde estava. A escrita também é bastante parecida com a hora da Estrela. A ingenuidade. Acho que agora pensando melhor no conto entendi porque minha professora de fenomenologia o indicou. De uma forma bem pouco explocada e sem rodeios. Quando alguem toma consciência da própria existência também se torna mais parte de si. E assim, como essa mesma professora disse, "se torna a batata no porão que vai lentamente, com sua folhas, procurando o sol". Pela segunda vez lendo Valter Hugo Mãe, não tenho o que comentar. Não tenho o que agregar. Os livros parecem completos, fechados em si. Me fez até acreditar que seria uma versão mais rústica do livro A Hora da Estrela, mas não. A certa subserviência me lembrou Macabéa, de A Hora da Estrela, mas a súbita consciência mostra a diferença fundamental entre elas. A menina que carregava bocadinhos se sentiu no direito de amar, de ser um pouco bonita; ela não só desejava. Ela entendeu que podia querer, nem que fosse só aos domingos, para a missa. Macabéa deseja sem saber que pode desejar. Já a menina que carregava bocadinhos entende. E, quando entende, não cabe mais no lugar onde estava. A escrita também é bastante parecida com A Hora da Estrela: a ingenuidade. Acho que agora, pensando melhor no conto, entendi por que minha professora de fenomenologia o indicou. De uma forma bem pouco explicada e sem rodeios, quando alguém toma consciência da própria existência, também se torna mais parte de si. E assim, como essa mesma professora disse, “se torna a batata no porão que vai lentamente, com suas folhas, procurando o sol”.

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    4.9 / 5
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    Valter Hugo Lemos profile picture

    Valter Hugo Lemos

    Valter Hugo Mãe é o nome artístico do escritor Valter Hugo Lemos (Henrique de Carvalho, Angola, 25 de Setembro de 1971). Além de escritor é editor, artista plástico, apresentador de televisão e cantor português . Valter Hugo Mãe é um escritor português que nasceu numa cidade angolana outrora chamada Henrique de Carvalho, atual Saurimo. Passou a infância em Paços de Ferreira e em 1980 mudou-se para Vila do Conde. Licenciou-se em Direito e fez uma pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 1999 foi co-fundador da Quasi edições na qual publicou obras de Mário Soares, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Manoel de Barros, António Ramos Rosa, Artur do Cruzeiro Seixas, Ferreira Gullar, Adolfo Luxúria Canibal e muitos outros. Co-dirigiu a revista Apeadeiro, de 2001 a 2004 e em 2006 funda a editora Objecto Cardíaco. Em 2007 atingiu o reconhecimento público com a atribuição do Prémio Literário José Saramago, durante a entrega do qual o próprio José Saramago considerou o romance o remorso de baltazar serapião um verdadeiro tsunami literário:

    58 Livros
    888 Seguidores
    Lunda-Sul, Angola

    Valter Hugo Lemos