Interrogando o real é o novo livro de Zizek lançado aqui no Brasil pela Autêntica, e tem como promessa inicial conseguir apresentar um panorama do pensamento do filósofo esloveno. Tarefa no mínimo difícil, tendo em vista o fato de que Zizek possui uma vasta produção de mais de 40 livros publicados desde o final dos anos 80. Como humilde leitor de Zizek acredito que a obra em certa medida consiga cumprir esse papel, principalmente se considerarmos que ela tem cerca de 400 páginas para alcançar seus objetivos. No entanto, há alguns comentários que precisam ser feitos. Talvez o ponto que mais me incomodou foi a ausência de Marx no livro. Como sabemos, o alemão é um dos pilares de Zizek para ler o contemporâneo, mas aparentemente a tradição de pensadores de esquerda parece sair de cena nessa coletânea, que tende a dar maior ênfase ao campo da psicanálise e da filosofia de Hegel. Outro ponto questionável é a repetição de algumas passagens. Nada que seja realmente apenas responsabilidade da editora, posto que já sabemos que Zizek se autoplagia continuamente, mas talvez outras escolhas de textos e conferências poderiam obliterar essa sensação no leitor. Para leitores antigos de Zizek alguns dos textos já são conhecidos, como passagens dO Mais Sublime dos Histéricos, mas outros escritos são verdadeiros achados. Aqui talvez resida o aspecto interessante da obra, pois temos a oportunidade de ler um Zizek muito diferente daquele que nos acostumamos a ler em seus últimos trabalhos, principalmente em termos de conteúdo, estilo de escrita e exposição de ideias. Textos que tratam de temas interessantes e pouco usuais na obra do esloveno como análise do discurso, Derrida e semiótica também aparecem aqui. No final temos um posfácio esclarecedor assinado pelo próprio autor, bem como um glossário muito bem montado que tenta dar as coordenadas para a visão do filósofo sobre determinados conceitos.