Arturo Úslar Pietri escribe sobre esta novela de Miguel Ángel Asturias (1899-1974), premio Nobel guatemalteco: "El señor Presidente no fue solamente un gran libro de literatura, sino un valiente acto de denuncia y de llamado a la conciencia. Más que todos los tratados y análisis históricos y sociológicos plantea con brutal presencia inolvidable lo que ha sido para los hispanoamericanos, en muchas horas, la tragedia de vivir."
El Señor Presidente (Obras completas #3) - edición crítica
Miguel Ángel Asturias
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Ler “O Senhor Presidente” (El Señor Presidente) do modo como li recentemente, na redação original do romance em espanhol e a partir do contexto brasileiro (e latino-americano) do início de 2018, implica, logo de cara, em duas considerações. A primeira é sobre a beleza hipnótica da escrita de seu autor, o guatemalteco Miguel Angel Asturias, laureado com o prêmio Nobel em 1967. A segunda é constatar como vivemos num ‘looping’ histórico de repressão persecutória e odienta que caracteriza as ditaduras (assumidas ou não) de direita que continuamente tem surgido do Rio Bravo até a Terra do Fogo. Pra fazer uma alusão ao filme “Feitiço do Tempo” (Groundhog Day, 1993) – que será de fácil entendimento pra qualquer um que já assistiu – é como se vivêssemos um ‘eterno dia da marmota’ no qual qualquer sinal de soberania e o mínimo que seja de social-democracia é – normalmente em questão de pouco anos – prontamente solapado por um endurecimento persecutório de qualquer um que se coloque contra interesses do imperialismo e de seus cupinchas pseudo-nacionalistas encarregados de manter o status quo da relação entre o miseráveis e os poderosos. Não raro, esse endurecimento se faz por meio de políticas formalmente ditatoriais, como os governos Pinochet (Chile) ou Videla (Argentina), mas há também as ditaduras veladas, formadas por governos ilegítimos que ou viraram a casaca logo depois de eleitos (como parece estar acontecendo agora no Equador) ou simplesmente apearam o governante eleito para usurpar o poder através de traquinagens jurídicas (como aconteceu na última década em Honduras, Paraguai e, há pouco menos de dois anos, no Brasil). É justamente por essa repetição do teatro histórico cacifado pelos interesses do capital estrangeiro que “El Señor Presidente”, concluído em 1932 mas só publicado quatorze anos depois, parece tão terrivelmente atual quanto o longo (e igualmente belo na escrita) relato jornalístico politizado de “As Veias Abertas da América Latina”, do uruguaio Eduardo Galeano. O fato do personagem-título não ser nunca identificado (apesar de ser diretamente inspirado no que foi o período do ditador Manuel Estrada Cabrera nas duas primeiras décadas do século XX), nem o país do qual se fala no livro ter nome, só ajuda a tornar essa narrativa perfeitamente aplicável em qualquer país latino-americano. A pena de Asturias faz emergir elementos míticos pré-colombianos e os mistura com as marcas do capitalismo e da religião europeias que vieram para cá junto com o Pinta, o Nina e o Santa Maria. Apesar dessa mistura de raças, culturas e etnias, todavia, as classes econômicas e o poder do aparelho repressor estatal estão muito bem separadas entre quem manda e quem, invariavelmente e pelo uso da força, terá que obedecer. Essa miscigenação estética e cultural, que é tão marca da nossa ‘latinidade’, vai rondar em torno de um tema em comum: os horrores da ditadura de um “senhor presidente” sem nome, que só conhecemos pela onipresença e pelas ações de quem está em seu entorno, mas sem quase nunca termos acesso diretamente ao que ele é e pensa, mal chega a se constituir num personagem de fato. Trocando em miúdos: o personagem-título do romance é tão desconhecido, alheio e inacessível ao leitor quanto é o poder para o latino-americano médio que porventura ler a obra. Há um abismo, que Asturias pontua como inexorável e irreversível, nesse ‘nós e eles’. Aqueles que passarem do ‘eles’ para o ‘nós’ – como de uma hora para outra acaba tendo que fazer o general Eusebio Canales, tornado persona non grata pelos outros fardados e pelo próprio “senhor presidente” – vai sentir as dores dessa perseguição que vai do ambiente urbano para o rural. Idem para personagens como Miguel Cara de Anjo, que dá um toque de narrativa policial, embora o peso massacrante das relações de força ierárquica se imponha de modo tão pronto e claro, sem que sequer suspeitemos desde o começo que ele possa mudar essa realidade em qualquer coisa que não seja viabilizar o amor com a filha do general exilado – ou nem isso. Na América Latina de Asturias, manda quem pode e acaba tendo que obedecer até quem não tem juízo. As passagens mais impactantes dessas dores, todavia, aparecem em personagens menos ‘importantes’ no sentido da visibilidade política e governamental. Mendigos, prostitutas (cujo ofício e cotidiano é descrito com maestria pelo autor) e até crianças surgem aqui em momentos de tortura excruciante que só se tornam suportáveis justamente por conta da escrita belíssima de Asturias, toda composta em capítulos curtos que vão e voltam nos personagens e interrompem os capítulos de repressão mais implacável para outros um pouco – só um pouco – menos intensos, de modo a pelo menos deixar o leitor respirar. O trecho da ‘mãe-túmulo’, em particular, é de dar nó na garganta até do último dos durões. Sobre a qualidade da escrita do guatemalteco, valeu a pena fazer o esforço de ler direto no espanhol justamente porque ficam ali bem marcados os elementos do que depois, com mais propriedade pelo colombiano Gabriel Garcia Marquez, se tornaria o chamado ‘realismo mágico’. Aqui ele ainda é um gênero embrionário, talvez tenha até elementos insuficientes para classifica-lo como tal, posto que a fantasia só aparece de relance como válvula de escape muito breve antes de ser invariavelmente sabotada, de novo e de novo, pela aspereza da realidade. Na Guatemala do autor e além dela, não há lugar – ao menos em qualquer prazo maior que curto – para o escapismo na aridez desse eterno ‘dia da marmota’ no qual vamos sendo puxados, como que pela força de um imã, sempre para o escancaramento da repressão e dar artimanhas de quem há muito está, continua estando e nos dá a impressão de que sempre estará no poder. Em tempos do PMDB e do PSDB voltando ao Palácio do Planalto pelo tapetão no Brasil, nada mais atual – e triste, apesar da graça narrativa – do que um livro como o de Asturias.
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Miguel Ángel Asturias Rosales
Miguel Ángel Asturias foi um escritor e diplomata guatemalteco ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1967. Novelista e contista do realismo fantástico, com influências na sua origem do surrealismo, sem desviar-se dessa corrente aborda o seu tema predileto - a mitologia indígena, a própria terra - e os conflitos e problemas campesinos, dos agricultores ainda submetidos ao jugo colonialista - como se pode ver já pelos títulos de suas obras.

