Esse foi o primeiro livro que recebi como assinante da TAG e não penso que a experiência poderia ter sido mais metalinguística do que foi, onde a ficção se torna um simulacro da realidade, ou vice-versa. Afinal, não é um dos objetivos desse clube de leitura enviar um pacote surpresa para seus associados? Pois então, qual não foi minha surpresa quando dentro desse pacote havia um outro, embrulhado em papel amarelo e amarrado por um nó meticulosamente centrado no barbante. Esse pacote estava endereçado para ser entregue, em mãos, a Carlos Heitor Cony, que, de modo um tanto quanto solidário, endereçou o mesmo pacote a nós, leitores.
Se compartilhamos da mesma experiência física que o narrador ao recebermos um pacote em mãos, também compartilhamos suas quase memórias. Porque o livro é sobre isso: lembranças que vêm à tona sem pedir licença, envoltas em pequenas fantasias e distorções que o passar do tempo prega em nossas mentes. E, como se não bastasse essas pequenas coincidências - coincidências não, causa e consequência, como dizia "o pai" -, compartilhamos também a inevitável linha genealógica que faz com que cada um de nós paguemos o tributo de nossa existência a nossos pais.
Existe melhor forma de pagar esse tributo do que com belas lembranças? O livro é justamente sobre isso, sobre as lembranças que nosso narrador-autor tem do seu pai, falecido há dez anos. No entanto, não é um pai qualquer, até porque nenhum pai é qualquer. Se trata de um homem que sempre está a fazer grandes coisas, utiliza suas técnicas únicas em tudo que faz e, assim, vai colecionando seus troféus. Dos balões feitos de papel de seda roxo, passando pela viagem nunca feita à Itália e culminando nas castanhas natalinas minuciosamente cortadas com um canivete já enegrecido, as recordações do pai pintam na memória um quadro cheio de ternura. Nós, leitores, estamos lá, admirando juntos esse mesmo quadro e nos permitindo pintar o nosso, com nossas quase memórias.