Cronista de uma cidade
Há cerca de duas semanas, o historiador Luiz Carlos Simas estreou a sua coluna no Jornal o Globo, deixando claro que aquele espaço seria uma espécie de repositório da cultura popular do Rio de Janeiro. Não por acaso, o primeiro autor citado foi Marques Rebelo, tema de um dos já clássicos perfis lançados pela Relume Dumará em parceria com a prefeitura carioca nos anos 90. Escrito pelo jornalista Luciano Trigo, um dos responsáveis pelo antigo caderno “Prosa & Verso” do jornal dos Marinho, “Marques Rebelo- Mosaico de um escritor” (Relume Dumará, 116 páginas) é um breve passeio pela trajetória do criador de “Oscarina”, nascido em Vila Isabel, contemporâneo de Noel Rosa, e que soube como poucos explorar a alma (sub)urbana do Rio da primeira metade do século XX. Isso fica claro em romances como o belo “A Estrela Sobe” (1939) que tem como tema a carreira de uma cantora de rádio, história adaptada para o cinema em 1974, tendo Betty Faria como atriz principal e Bruno Barreto como Diretor. Tendo estreado como contista no começo dos anos 30, por intermédio de Augusto Frederico Schmidt, Rebelo é logo reconhecido como um herdeiro de Manuel Antônio de Almeida ao cristalizar os tipos populares das ruas, matéria prima de sua produção, feito exemplificado não só no já citado “A Estrela Sobe” como no menos incensado “Marafa” (1935), seu antecessor. Eleito para a Academia em 1964, sua carreira acabou marcada pelo ambicioso projeto “O Espelho Partido”, obra que, embora ficcional, foi estruturada para ser um grande painel da vida do país entre as décadas de 30 e 50 a ser publicada em sete tomos. Marques Rebelo só conseguiu escrever três, lançados entre 1959 e 1968. Composta como um diário fragmentado, onde entram rememorações, relatos e comentários esparsos, apesar de controversa, é tipicamente a sua grande marca como narrador. Prova disso é que Luciano Trigo despreza a fórmula tradicional de composição de um perfil e a emula explicitamente, inclusive no subtítulo do volume (“Mosaico de um escritor”). Há também espaço para explorar um pouco da verve irônica de Rebelo, conhecido por externar opiniões pouco lisonjeiras sobre alguns de seus pares, muitos deles retratados nos três volumes de “O Espelho”. Esse pode inclusive ser um dos fatores que o levaram à um certo ostracismo durante décadas, o que só recentemente vem sendo revertido, sobretudo por novas e caprichadas edições de seus livros. Pode-se dizer que para aqueles que ainda não se aventuraram pelas muitas páginas desse apaixonado torcedor do América, esse pequeno volume é um útil tíquete de entrada, que consegue dar a dimensão exata do indissociável aroma da zona norte que permeou tudo o que foi produzido pelo escritor em quase cinquenta anos de atuação. Não resta dúvida de que no panteão dos grandes cronistas do Rio, onde cabem Lima Barreto, Machado, Luiz Antônio, Ruy Castro, Manuel Antônio de Almeida, Marques Rebelo tem assento especial, enfeitado pelas confetes das batalhas carnavalescas de seu bairro natal. Mais carioca, impossível.
