Esta é uma resenha redigida meramente sob o prisma de crítica literária, analisando especificamente forma e conteúdo de um livro que se propõe a ser uma espécie de biografia do deputado Jair Bolsonaro, escrita pelo seu filho Flávio Bolsonaro. Eu não classificaria a publicação como biografia. A própria capa já traz um alerta prevendo que o texto seria bastante parcial. Uma narrativa feita “aos olhos do filho” (e certamente “aos cuidados do pai”) não traria informações negativas, principalmente em ano de eleição presidencial.
Em “Jair Messias Bolsonaro - Mito ou Verdade”, Flávio faz um apanhado dos “melhores momentos” da vida do pai, desde a infância, passando pela escola, carreira militar, ingresso na política, eleições para vereador, deputado federal, apresentando suas versões para algumas polêmicas em que se envolveu. O texto é descontraído, escrito numa linguagem muito simples e acessível a todos. Contudo, é muito mal dividido. Nenhum capítulo, nenhum sub-capítulo, nem sequer uma separação entre parágrafos para indicar o fim de um tema e o início do próximo. É um textão corrido, uma redação gigante de colégio e bola pra frente...
A escrita de Flávio traz muitas curiosidades do cenário político nacional. Entre elas, chamou-me a atenção o caso da demarcação de terras indígenas da tribo Pindoty/Araçá-Mirim, na região do Vale do Ribeira (SP). Flávio reproduz uma publicação do Diário Oficial da União (de 27/01/2017) que define “tecnicamente” o balizamento de uma reserva indígena através da “revelação nos sonhos de um pajé que aquela região era habitada por seus antepassados”.
Obviamente, Flávio Bolsonaro não é um escritor. Fez uma pesquisa sobre a vida do pai, escreveu um texto que passou por um copy desk mediano e o lançou em formato de livro, aproveitando a ocasião da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Ademais, o tom de “resposta” com que o texto foi redigido dá à publicação um inegável aspecto panfletário.
Quando cursei o segundo grau (feito no CEFET-PR), tive um excelente professor de Português (com quem já havia tido aulas no ginásio, no Colégio Bom Jesus) chamado Silvino. Nas aulas de Português do CEFET aprendíamos a dar palestras, valendo uma grande parcela da nota do semestre. Escolhíamos um tema, preparávamos texto e material de apoio e - desafiando a timidez - ministrávamos sobre ele para a turma (às vezes duas turmas juntas, um terror!). Numa das ocasiões (eram pelo menos 6 palestras durante o curso), decidi apresentar a história do Clube Atlético Paranaense. O meu fanatismo juvenil tratou de omitir os momentos menos gloriosos do Furacão. Para mim, o desafio era ainda maior, vez que o Silvino era um notório coxa-branca (torcedor do rival, o Coritiba). Fui muito bem com a apresentação, recebi elogios e a aprovação. Porém, o professor fez uma anotação no meu roteiro: “Nem tudo foram flores”. Aquela frase, por si só, valeu como uma grande lição. Se quiser contar uma história, conte-a inteira, pois ao distribuir o peso para ambos os lados, prós e contras, torna o assunto muito mais interessante para o espectador (ou leitor). Diante disso, a parcialidade da redação de Flávio é, de certa forma, incômoda. É polêmico quando lhe convém, mas vale-se de meias palavras (“uma determinada empresa” / “um governador de um grande estado brasileiro” / “uma conhecida deputada” / “um conhecido programa de TV”) quando não quer (e, entendo, às vezes não pode) se comprometer.
Em ano de eleição, considerei importante saber mais sobre a vida de Jair Bolsonaro. O livro me trouxe pouco, com temáticas e denúncias importantes da vida política do deputado e candidato sendo omitidas ou tratadas com superficialidade.
A brochura apresenta um acabamento muito pobre. A encadernação colada deixa as páginas enrugadas, deixando o livro com aspecto desengonçado, torto, parecendo que foi feito em casa. A diagramação é espartana, possivelmente feita no Word. A edição “tipo anos 80” carecia de maior cuidado.
Nota do livro: 5,94 (2 estrelas).