Eu procurei por este livro por muito tempo depois de ter assistido à adaptação para a TV da BBC que se inspirou no primeiro e no segundo volume da série de livros de Graham e me encantou completamente. Mas, embora já conhecesse a história por conta da série de TV, nada poderia ter me preparado para o que eu encontrei neste livro. Isso porque Winston Graham faz com palavras o que Michelangelo fazia com pincel e tinta: obras de arte de tirar o fôlego. Cada frase é essencial para a construção de um enredo rico e sensacional. Cada paisagem é tão habilidosamente bem descrita, que nós quase podemos sentir a brisa em Hendrawna Beach, a grama sob os nossos pés em Nampara e ver o sol mergulhar no mar ao fim do dia. A paisagem de Cornwall, na Inglaterra, nunca foi melhor retratada.
Com relação à trama, Graham nos apresenta o protagonista Ross Poldark em seu retorno à Cornwall após os ingleses perderem a guerra de independência dos Estados Unidos da América. Logo, ele descobre que seu pai faleceu, a propriedade que herdou está em ruínas e sua amada Elizabeth está noiva do seu primo Francis. Não podia haver um cenário mais devastador para o Capitão Poldark. Mas Ross não é um personagem simples, que é facilmente abatido. Não. Ele, como inteligente que é, quer empreender um negócio em uma velha mina na propriedade: reabri-la e colocá-la para funcionar. O Capitão Poldark faz disso seu objetivo de vida, ele não tinha nada a perder. Mesmo assim, para seu empreendimento ganhar vida, ele teria que enfrentar as novas forças locais que se ergueram e se consolidaram entre os poderosos enquanto estava fora e, entre essas forças, a principal é George Warleggan, inimigo de Ross desde que eram crianças.
Os desafios para Ross não são fáceis, no entanto ele tem pessoas encantadoras para lhe encorajar nesta jornada, como a sua prima Verity (que é irmã de Francis), os seus hilários empregados Jud e Prudie e, é claro, Demelza. Demelza era apenas uma garota quando Ross lhe encontra e lhe oferece um trabalho em sua casa, mas com o passar dos anos (e o livro cobre quatro anos do dia-a-dia de Poldark), ela cresce e se torna uma jovem dama esperta e encantadora, uma personagem doce e generosa por quem nossa estima cresce mais a cada página.
Assim, o drama principal da história reside na dúvida se Ross vai ou não conseguir se reerguer, superar seu amor frustrado por Elizabeth, se livrar dos obstáculos impostos por George Warleggan, por sua própria natureza impulsiva e fazer com que a mina prospere. É fantástico como um enredo aparentemente simples pode ser tão rico quanto este é. Winston Graham não só pinta obras de arte com suas palavras, mas retrata todo um período histórico, grupos sociais e seus conflitos com uma sensibilidade tão marcante, que nos vemos enredados em sua maestria e extasiados ao final do livro. Além disso, o autor está sempre a brincar com a natureza humana e lançar reflexões filosóficas sobre o homem em cada diálogo e ações de seus personagens de modo a provocar em nós reflexões sobre nossos próprios vícios e paixões. Impossível não favoritar. Estou muito contente porque a Pedrazul decidiu trazer a série para o Brasil!
"Alguém - um poeta latino talvez - definiu eternidade como nada mais do que isso: agarrar e tomar posse de toda a completude da vida em um só momento, aqui e agora, passado, presente e o que havia de vir. Ele pensou: se pudéssemos apenas parar a vida por um instante, eu a pararia aqui. Não quando chegar em casa, não ao sair de Trenwith, mas aqui, aqui, alcançando o topo da colina nos arredores de Sawle, o entardecer varrendo as beiradas da terra e Demelza caminhando e cantarolando ao meu lado."