Um romance extremamente bem escrito. O autor faz uma construção muito bem detalhada de mundo, dando detalhes tanto aos belos cenários como à construção dos personagens. Ele não tem pressa e toma seu tempo para descrever os acontecimentos, tanto é que só perto da metade do livro é que o casal principal se encontra pela primeira vez, pois antes estávamos ficando familiarizados com os personagens, sabendo sobre o avô e os pais de Carlos de Maia (o protagonista), que vem a ter um papel importante na história. Porém isso não é feito de uma maneira maçante, é feito de uma maneira viva, feito de uma maneira que não se pode ver o que vem pela frente porque é como se tivesse sua vida própria, é dado tempo para conhecermos, gostarmos e desgostarmos de personagens e ver suas desventuras burguesas em Lisboa.
Além disso as confraternizações dos personagens além de os darem vida tecem comentários e críticas sobre filosofias, política, economia e principalmente, sobre a sociedade (especialmente a sociedade burguesa) de Lisboa da época, com frases como: "No tempo da regeneração e dos Históricos, a política era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrório... Nós mudamos tudo isso. Hoje é o fato positivo, o dinheiro, o dinheiro! O bago! A massa! A rica massinha da nossa alma, menino! O Divino dinheiro!" Que nada mais é que um diálogo secundário, porém que traz em si muito significado, o livro é cheio desses.
Apesar de ficar óbvio uma das principais reviravoltas bem antes de ela chegar (hoje em dia é facilmente perceptível, pois já foi amplamente usada, na época não sei se o era) muito ocorre que não se pode esperar e durante certo tempo mal dá pra se imaginar para onde a história sequer vai.
Vemos assim a sociedade lisboeta da época e suas falhas, filosofias, pensamentos políticos, vemos como é a vida burguesa dos personagens principais, como Carlos Maia que nasceu e morreu rico sem para isso fazer o menor esforço, e toda a teia de infidelidades, mentiras, aparências que ocorre por trás dela, com várias traições e casos amorosos escondidos, com boatos que sabem tudo e os quais todos temem.
Uma leitura bem interessante e percebe-se porque é um clássico da literatura portuguesa.
P.S (Pequeno Spoiler): É muito interessante a contradição no final de Carlos e Ega chegarem à conclusão de que não vale a pena correr por nada na vida e eles manteriam o passo sossegado mesmo que dissessem que havia uma fortuna os esperando no andar de baixo, porém logo em seguida correm para alcançar um "táxi" pois estão atrasados para um jantar que eles marcaram. Podendo tanto ser visto no sentido de como eles valorizam os costumes, até mais que paixões, fortunas, etc, ou também podendo ser visto como o quão é inevitável que se corra pelas coisas na vida, mesmo que se aceite uma filosofia de levar tudo na calma, eles dois, como dois "românticos" correm atrás das coisas, mesmo que por isso sofram as consequências.