Miguel Torga - antologia poética
Poeta que canta a vida com tudo o que esta tem de bom e de mau, não enjeita o sofrimento, antes o exige como parte da humana condição, com a coragem de ser o eterno Adão com sua condição de erros e pecados. Orfeu rebelde, desafia o próprio Deus, é homem vivo que saiu de sua mãe para negar a qualquer/seja deus,/seja mulher/um simulacro sequer/de amor passivo/ e grita: E não te peço perdão de ser assim/ Sabe que é pecador mas mesmo assim nega seguir Deus. Aceita-se como é, exige ser como é, e exige que a sua vida seja o que sai de si, o que pensa e sente. Este mundo com todas as imperfeições é que é o paraíso possível de Miguel Torga, mais do que o paraíso é tudo o que é possível haja. Voz forte, poderosa, que se faz ouvir solitária e sem medida, gritando nos muros e nos caminhos da cidade a sua rebeldia como impressão digital de humanidade. Poemas breves, simples, desdobrando-se em toada, descobrindo-se, a facilidade com que, como em cascata, a sua poesia se anuncia, transporta algo da beleza da água pura a correr rio abaixo, e as rimas e as imagens surgem em catadupa com a simplicidade de líquido a verter para o copo da natureza e da vida. É pena a sua poesia não se tenha aventurado por outros temas, outros caminhos, mas o que escreveu é de uma dignidade e de uma exigência absolutas, primorosas.



